<$BlogRSDURL$>
suspeitos do costume
domingo, julho 25, 2004
  Crónicas de amor e ócio

 
O síndrome José Cid

(Sugestão de destaque: “De repente gelou. No ecrã, um Cavaco Silva magro, moreno, seco, com um nó de gravata minúsculo e saliva nos cantos da boca falava a uma Assembleia da República cheia com homens de patilhas e fatos de mau corte. Rebobinou a cassete e tornou a ouvir Cavaco. Outra vez. Outra vez. Outra vez. Outra vez. Outra vez. Outra vez.”.)

Rui Baptista

 
E, um dia, acordou a cantarolar uma canção de José Cid, esse grande português ainda vivo. A princípio nem deu por ela, mas quando estava a fazer a barba brotou-lhe nos lábios, vindo não sei de onde, o refrão “Ontem eras a menina mais alegre e mais bonita que eu já conheci”…Calou-se de repente e com o susto até fez um pequeno corte na bochecha. Olhou em volta para confirmar que ninguém o tinha  ouvido. A casa de banho estava vazia,  branca, asséptica, muda, com cheiro a pinho e lavanda. Ainda com a cara ensaboada percorreu o resto da casa, para confirmar que estava sozinho. As crianças tinham saído para o colégio, a mulher para o emprego, a empregada (sem saber porquê apeteceu-lhe dizer “a criada”, como no tempo dos seus pais, em que se ia a uma aldeia perdida na serra buscar uma criada que dormia no quartinho dos fundos) tinha sido dispensada quando a Ministra das Finanças anunciou que não haveria outra vez aumentos na Função Pública. Estava sozinho. Sem testemunhas.
Voltou para a casa de banho e recomeçou a cantar José Cid, desta vez mais alto. Gostou da acústica da casa de banho forrada a azulejos brancos e azuis e experimentou mudar de tema. “A rosa que te dei/ não foi criada num jardim/ por isso tinha mais/ significado para mim”. Há mais de 20 anos que não ouvia este tema, desde os tempos do liceu, mas as palavras saíam-lhe naturalmente, sem esforço. Na hora do duche já cantava a plenos pulmões, desfiando o repertório do antigo líder do Quarteto 1111.
Já estava a a jeitar o nó de gravata quando sentiu um impulso incontrolável de mudar de roupa. Abriu a última gaveta da cómoda, aquela onde eram guardadas as roupas que a moda tinha posto fora de moda, e depois de muito remexer sacou das profundezas um fato de treino verde alface com listas lilás nas mangas e um uma espécie de losango azul no peito. Vestiu-o, indiferente ao cheiro a naftalina, ajeitou a cintura de elástico à volta da barriga bojuda, mirou-se ao espelho e gostou do que viu. Ainda a cantarolar “Romântico mas não trôpego” pegou no telefone e ligou para o emprego a dizer que estava com febre, que lhe doía a garganta e a cabeça “e coisa e tal”. A chefe foi compreensiva, falou-lhe num vírus que andava a deitar pessoas abaixo e recomendou-lhe descanso e canja de galinha. Sorriu, encantado, Um dia pela frente sem nada para fazer.Ligou o computador e foi à Internet ver o PÚBLICO. Tentou ler, como sempre fazia, a coluna de Eduardo Prado Coelho, mas desta vez não percebeu nada, ao contrário do habitual. “Hermenêutica”, “afectos”, semiótica”, “orgasmo vertical”, “Manuel Maria Carrilho”…As palavras ensarilhavam-se, rodopiavam, confundiam-no. Sentiu o impulso de ler algo mais básico e clicou na coluna de Luís Delgado, no DN. Agora sim, tudo encaixava. Desligou o computador, ligou a televisão. Manuel Goucha guinchava de mão na anca; mudou para a SIC e apanhou a Fátima Lopes a falar com um boneco sentado nos joelhos de um ventríloquo. Já não teve coragem de espreitar a RTP, e sentiu, sem saber porquê, a necessidade imperiosa de evitar a Dois:. Passou a correr pelos canais de cabo. Cinquenta canais e nada para ver. Ainda parou no Televendas, por causa de uma miúda num fato minúsculo de lycra que se exercitava numa máquina com aspecto complicado, mas desistiu. De repente veio-lhe uma ideia. Foi à garagem, remexeu numa caixa de papelão e regressou triunfante com uma cassete de vídeo. Enfiou-a no aparelho, foi à cozinha buscar uma cerveja e um frasco de pickles e sentou-se a rever a final  da Taça dos Campeões Europeus de 1987, aquela em que o FC Porto derrotou o Bayern de Munique por 2-1. Deliciou-se com os comentários do Ribeiro Cristóvão e de Miguel Prates, vibrou com o calcanhar de Madjer, o golo de Juary, chorou quando João Pinto deu a volta  ao Prater agarrado à taça. Ainda estava a fungar quando começou o Telejornal daquele dia 27 Maio de 1987. Olha o Carlos Cruz, tão magrinho e tão solto, a Manuela Moura Guedes tão discreta, o Carlos Fino em Moscovo. De repente gelou. No ecrã, um Cavaco Silva magro, moreno, seco, com um nó de gravata minúsculo e saliva nos cantos da boca falava a uma Assembleia da República cheia com homens de patilhas e fatos de mau corte. Rebobinou a cassete e tornou a ouvir Cavaco. Outra vez. Outra vez. Outra vez. Outra vez. Outra vez. Outra vez. O cheiro a naftalina do fato de treino estoirou-lhe no cérebro e sentiu-se agoniado. Olhou em volta, desperado, apanhou o saco de plástico do Expresso e vomitou lá para dentro os pickles e a cerveja.

 
Crónicas de amor e ócio

Desconfiança e frenesim

Rui Baptista

 
(Sugestão de destaque: “O português médio desconfia. Desconfia do vizinho, do presidente da junta de freguesia, do presidente da câmara, do ministro, do juiz. O português médio desconfia até de si próprio, das suas qualidades, da sua sombra. É uma desconfiança atávica e justificada”.)

1. Uma das conclusões mais interessantes do último Eurobarómetro é a que revela que os portugueses confiam mais nas instituições europeias do que nas instituições nacionais, nomeadamente o Governo e o sistema judicial. Este era um sentimento que já se pressentia, mas não deixa de ser curioso vê-lo confirmado por um inquérito realizado junto de uma amostra representativa da população portuguesa.
O português médio desconfia. Desconfia do vizinho, do presidente da junta de freguesia, do presidente da câmara, do ministro, do juiz. O português médio desconfia até de si próprio, das suas qualidades, da sua sombra. É uma desconfiança atávica e justificada. Justificada por séculos de hesitações, pequenas traições, meias-palavras. De obras deixadas a meio, de promessas por cumprir.
Mesmo quando escolhe livremente, o português desconfia. Desconfia que “aquela gente”, gente que ajudou a eleger com o seu voto, lhe vai virar as costas na primeira oportunidade. “Aquela gente” está lá é para tratar da sua vidinha, para tratar da vidinha dos seus. Trinta anos após a revolução de Abril, os portugueses permanecem com a atitude desconfiada dos camponeses perante os burgueses letrados, como se o Fontismo e a Regeneração tivessem ocorrido na semana passada. A classe política continua a ser encarada como “uma choldra”, o Governo continua a ser candidato a ser apagado com benzina. O falseamento das instituições, a astúcia dos políticos, a fraude e a corrupção do poder político continuam a ser apontados como os condimentos que contribuem para uma degradação acentuada do estado da nação.
Os problemas permanecem, portanto, mas desta vez não há uma “Geração de 70”, para instigar o pensamento, para nos redimir. Não há Eça ou Ramalho, nem Teófilo Braga ou Antero de Quental. Há só esta espécie de desencanto profundo com o país, que nasce lá no fundo de cada um e se revela nas pequenas amarguras do dia-a-dia.
Desencantados com a vida, decepcionados com o Governo, desconfiados da oposição, descrentes nas instituições, os portugueses alongam agora o olhar para a Europa, como se lá morasse a última esperança.
As conclusões do Eurobarómetro têm que ser lidos ao contrário. Os portugueses não confiam mais nas instituições europeias do que nas nacionais – desconfiam é menos delas, porque estão mais longe, porque supostamente atrapalham menos as suas vidas, Claro que isto é mais um engano, mas é também um sintoma terrível do estado de pessimismo em que o país está mergulhado. Tudo, mesmo tudo, ainda vai ficar pior antes de melhorar. Alguém tem dúvidas?

 
Crónicas de amor e ócio

Menino não entra! E cigano também não!

(Sugestão de destaque: “Há um programa intrigante nas tardes da TSF. Chama-se “Fórum Mulheres”, é apresentado por Margarida Rebelo Pinto e não permite a participação de homens a não ser em situações absolutamente excepcionais. É uma espécie de Clube do Bolinha ao contrário, onde “menino não entra”.)

Rui Baptista

1.A notícia vem no caderno Local Lisboa do PÚBLICO de terça-feira. Alguns comerciantes do Campo Grande espalharam pelas suas lojas sapos de pelúcia e colaram nas montras fotocópias de fotografias coloridas de batráquios. O objectivo destas medidas não é homenagear o conhecido Cocas (que, segundo apurei, afinal é uma rã...), nem relembrar o conto dos irmãos Grimm que metia um sapo que se transformava em príncipe. Não se trata sequer de alguma estranha nostalgia associada à canção “Eu vi um sapo”, da pequenita Maria Armanda, que provocou lesões emocionais e auditivas a muita gente da minha geração, ou de qualquer fetiche zoófilo. A explicação é bem mais simples: os comerciantes espalham sapos para afastar dos seus estabelecimentos as “pessoas de etnia cigana” (como agora se diz), uma vez que o povo cigano considera o batráquio um animal agoirento, que traz azar. Ou seja: sapo na loja, cigano na rua.
Ora aí está uma coisa de que nunca ninguém se tinha lembrado e que pode ajudar a evitar muitos conflitos sociais. Os comerciantes do Campo Grande são uns visionários. Já viram se a moda pega? Ainda vamos ver lojas por esse país fora com fotografias do louríssimo Roberto Leal pregadas nas portas, com a intenção de manter afastados os negros e outras pessoas de bom gosto. Lá virá o dia em que leões de esferovite serão usados para manter à distância adeptos do Benfica em estabelecimentos seleccionados, ou em que pequenas estatuetas de Pinto da Costa vigiarão “os mouros”  que ousarem passear nas ruas do Porto. Já pensaram no poder dissuassor que pode ter uma foto de Manuel Monteiro colado na sede do Largo do Caldas (ou em qualquer outro lado)? Na efígie de Manuela Ferreira Leite à porta dos cinemas? E se alguém se lembrasse de colocar pósteres de George W. Bush nas alfândegas de todos os países civilizados? Eu próprio, que sou muito supersticioso, recuso-me a entrar em cafés que tenham a televisão ligada na TVI, porque acho que a Manuela Moura Guedes me dá azar...
Há uma palavra para a atitude dos comerciantes do Campo Grande: intolerância. Intolerância com uma pitadinha de racismo, claro. A história pode ser engraçada, os sapinhos de peluche amorosos e os gestos de discriminação subtis, brandos, quase paternalistas, como manda a tradição do país. Mas, lá no fundo, espreita a feia cabeçorra da discriminação. E essa, meus amigos, é que obriga a todas as pessoas de bem a ficarem do lado de fora.

2. Há um programa intrigante nas tardes da TSF. Chama-se “Fórum Mulheres”, é apresentado por Margarida Rebelo Pinto e não permite a participação de homens a não ser em situações absolutamente excepcionais. É uma espécie de Clube do Bolinha ao contrário, onde “menino não entra”. Há dias disfarcei a voz ao telefone e tentei infiltrar-me no programa em que estava a ser discutida a questão da interrupção voluntária da gravidez, , mas fui descoberto antes de poder dizer “boa tarde”. Expulsaram-me do éter, claro, escorraçaram-me deste gineceu radiofónico, fazendo-me sentir um porco machista. Desde essa altura tenho-me limitado a ouvir o que se passa no programa, quase clandestinamente, com receio de ser descoberto.
A frase que a TSF escolheu para promover o programa é simplesmente genial: “Neste Parlamento superamos a lei da paridade”. Pois. De boas intenções está o Inferno cheio. Não se admirem se um dia destes aparecer por aí algum misógino encartado a pedir que o Fórum das manhãs da TSF seja fechado às mulheres. Ele há gente para tudo.

3. Os episódios de Serinfeld vão ser finalmente lançados em dvd, após Jerry ter finalmente convencido os seus colegas de elenco a abdicarem de receber um dinheirinho extra. George, Kramer, Elaine, Jerry, Goodman, e outros neuróticos estão de volta e agora até podem ser guardados numa gaveta lá de casa. Deus existe.

 

 
Crónicas de amor e ócio

Resoluções de Ano Novo

 
Rui Baptista

(Sugestão de destaque: “Em 2004, vou reclamar o direito de voto nas eleições americanas de 2 de Novembro. Eleger o inquilino da Casa Branca começa a ser uma missão demasiado importante para ser deixada apenas aos americanos. Se os deixarmos à vontade, ainda reelegem George W. Bush”)

Apetecia-me começar esta crónica com a citação integral do poema “Receita de Ano Novo”, de Carlos Drummond de Andrade, mas tenho receio de vir a ser acusado de preguiça intelectual, justificada apenas pela enorme quantidade de guaraná e água do Luso que bebi nesta passagem do ano. Uma ressaca de guaraná é uma coisa terrível: deixa-nos prostrados, amarelos, biliosos, incapazes de enfrentar o mundo com os olhos bem abertos. Deixa-nos parecidos com o Mário Jardel pós-Bolloni, e isso é simplesmente terrível.
Muita gente aproveita o Ano Novo para arrumar a vida e pôr prateleiras na vontade e na acção, como ansiava Álvaro de Campos. Fazem-se listas de boas intenções, resoluções de Ano Novo cujo cumprimento falharemos miseravelmente. De nada valem as palavras avisadas de Drummond: “Para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras/ mas novo nas sementinhas do vir-a-ser/ (…) Não precisa de fazer listas de boas intenções para arquivá-las na gaveta/ Não precisa de chorar arrependido pelas besteiras consumadas/ Nem parvamente acreditar que por decreto da esperança/ a partir de Janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações/ Liberdade com cheiro e gosto de pão matinal/ Direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver”.
Fazer uma lista de promessas e juras de Ano Novo é uma coisa tão natural como a sua sede. Desde que não seja sede de guaraná, claro. Aqui fica a minha lista de 20 resoluções para 2004:

Prometo não voltar a misturar guaraná com água do Luso.
Prometo responder a Manuel Monteiro, se ele me escrever. Confesso aqui a minha admiração por um homem que, sozinho, está ressuscitar a velha tradição epistolar portuguesa. Indignado pelo facto de nem o Presidente da República nem o primeiro-ministro responderem às sucessivas cartas do líder do PND, ouso sugerir-lhe que escreva pessoalmente a cada um dos portugueses, garantido-lhe que, ao menos por esta vez, não vai ficar a escrever sozinho.
Em 2004 vou procurar ajuda profissional para acabar com os ataques de pânico desencadeados pela simples audição das palavras “défice”, “Manuela”, “Ferreira” e “Leite”.
Vou enviar ao ministro Morais Sarmento um cartão de visita de Eduardo Beauté, “o barbeiro das estrelas”.
Vou oferecer a Francisco Louça um conjunto de camisas com colarinho engomado.
Prometo não voltar a criticar publicamente Paulo Portas. O ministro é um puro de coração, como o comprova o facto de falar pessoalmente todas as noites com Nossa Senhora.
Prometo não voltar a meter-me com os assessores de Paulo Portas, esses heróicos rapazes que trabalham a bem da Nação enquanto a Nação repousa.
Em 2004 vou inscrever-me no ginásio do juiz Rui Teixeira e aumentar a minha colecção de “t-shirts” brancas. Só não compro um jipe em segunda mão à GNR porque não tenho contactos.
Prometo não voltar a misturar guaraná com água do Luso.
Vou fazer um esforço para gostar do Kinas, a pirosa mascote do Euro-2004
Vou tentar ser solidário com Vitor Baía, mas já sei que não vou conseguir.
Prometo ensinar ao Deco a letra do hino nacional português.
Vou acabar de ler o Principezinho.
Vou mudar para a parede da dispensa a edição litografada do poema de O'Neill sobre um peixe recalcado.
Vou mandar rezar uma missa pela saúde do PS…
…e vou à Festa do Avante, antes que acabe!
Em 2004, vou reclamar o direito de voto nas eleições americanas de 2 de Novembro. Eleger o inquilino da Casa Branca começa a ser uma missão demasiado importante para ser deixada apenas aos americanos Se os deixarmos à vontade, ainda reelegem George W. Bush.
Vou  também “torcer” para que os nossos soldados da GNR regressem são e salvos do Iraque.
E prometo que “depois de amanhã serei outro, a minha vida triunfar-se-á, todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático serão convocadas por um edital…”

 
“Welcome to India, sir!”

 
Rui Baptista

É praticamente uma verdade científica: eficiência de um taxista de Bombaim mede-se pelo número de amolgadelas do seu carro. Um Fiat amarelo e preto com um farolim pendurado, portas riscadas e guarda-lamas amassado é a prova irrefutável de que o condutor é capaz de enfrentar com desembaraço o trânsito insano de Colaba à hora de ponta. Não interessa se o condutor vai desrepeitar todas as regras de trânsito (em Bombaim toda a gente desrepeita as regras de trânsito...), se vai buzinar como um louco durante todo o percurso, ou se o piso do carro tem tantos buracos que se consegue ver o alcatrão. O que é importante é que são quatro da tarde, o aeroporto de Bombaim derrete sob um sol impiedoso e nós com ele, e que o ar se transformou num manto diáfano de poeira e fumo, que se pode cortar à faca e que cheira como um animal atropelado há 15 dias à beira de uma via rápida.
 O táxi de Sandeeep prometia. A porta do condutor soldada para não cair, o “capot” com mais mossas do que a cara de um pugilista depois de 15 “rounds” com Mike Tyson e um altar de Lord Ganesh aparafusado ao “tablier” eram a garantia de uma viagem cheia de emoções até Apolo Bunder, até à zona dos ricos e dos turistas, dos hotéis com ar condicionado e vista para o Gate of India. E depois havia Sandeep. Marca de casta na testa, bigode enrolado nas pontas e um sorriso aberto. Atravessar Bombaim em hora de ponta, carregado com quatro turistas branquelas e meio zonzos pelo jet-lag e um número incontável de malas? “No problem, sir! Welcome to India”.
Quase todos os livros de V.S. Naipaul sobre a Índia começam no aeroporto internacional de Bombaim e é fácil perceber porquê. É ali (mais até do que em Dehli) que começa a Índia. Não a “Índia do milhão de aldeias” de que falava Gandhi, mas a Índia das grandes metrópoles. Bombaim tem camadas, como a cebolas, e o táxi de Sandeep atravessou-as a todas, aos ziguezagues e aos tombos, num coro ensurdecedor de buzinadelas e imprecações em hurdu, hindi, konkani e até inglês. E um e outro grito de pânico em português, claro.
 Sandeep rompeu pelo meio do bairro da lata que asfixia o aeroporto, assustou mulheres que lavavam a roupa à porta das barracas, perturbou o sossego dos homens que faziam as suas abluções no passeio, desembocou no meio da avenida congestionada como um bandarilheiro numa praça de touros, driblou daqui, tenteou dali, empurrou com um ligeiro toque de guarda-lamas um riquexó mais preguiçoso, ignorou o sinal vermelho junto ao “Soppers Stop” deixando para trás uma multidão desconsolada de mendigos, passou uma tangente ao polícia sinaleiro de Colaba e travou por fim junto ao West End Hotel. “You are home, sir”! Nada mais certo. Estamos em casa, ali junto ao hospital, perto do mar viscoso que brilha no escuro, abrigados pela copa das árvores que escurece a rua e protege as gentes, embalados pelos gritos dos corvos e os cânticos dos fiéis a Rama, sentindo nascer desejos de “gulab jam”,  “mangolas” e arroz “biriani”. A Índia entra-nos no coração mais depressa do que o táxi de Sandeep leva para romper pelas colinas de Malabar acima. E deixa cicatrizes que duram para sempre. Felizmente.

 

Crónica

 
O castelo da bola

Rui Baptista
(Jornalista)
rui.baptista@ip.pt

(Sugestão de destaque: “O novo estádio é um orgulho. É uma beleza. É o nosso castelo. Havemos de ser lá tão felizes como fomos no Mário Duarte. Ou mais”.

 
Já passaram bem mais de 30 anos sobre aquele dia em que o meu pai me levou pela primeira vez ao Mário Duarte. Foi a primeira e a última vez que fomos juntos ao futebol, porque ele, embora continue a ser um adepto fervoroso do Beira-Mar, nunca gostou muito deste desporto. Ao longo da vida interessou-se sempre mais pelo resultado do que pelo jogo. Mas nessa tarde, que eu recordo como sendo de um sol glorioso, ele encheu-se de paciência e levou-me pela mão pelo meio da multidão que cruzava as ruas do Parque d. Pedro. Subimos a avenida das Tílias, cruzámos os portões de ferro e depois ele comprou-me um pacote de pevides, de formato cónico, feito de uma folha de papel de jornal. O jogo entre o Beira-Mar e o Benfica já devia ter começado, porque lembro-me do rugido dos adeptos, que me fez lembrar, na sua cadência, as ondas do mar. E como eu gostava (gosto) de mar!
Anos mais tarde descobri que, por uma feliz coincidência, o brasileiro Caetano Veloso escreveu em 1965 uma canção chamada precisamente Beira-Mar, que arranca assim: “Em terra em que o mar não bate não bate o meu coração”. Quem nasceu tendo como ruído de fundo o marulhar das águas da Costa Nova e da Barra percebe, sem grandes explicações, o alcance desta frase. E quantas vezes, fechando os olhos, encontrei o mar da minha infância no barulho assombroso dos adeptos do Mário Duarte.
Na tarde desse dia em que o meu pai me “levou à bola” eu vi pela primeira vez jogar o Beira-Mar. E vi Eusébio, nessa altura ainda de águia ao peito. Empoleirado nos ombros do meu pai vi como o moçambicano rompeu pelo meio da defesa aveirense e fuzilou o guarda-redes da casa (julgo, mas provavelmente estou enganado, que se chamava César). E recordo como o estádio todo aplaudiu o golo, beiramarenses e benfiquistas unidos na admiração da jogada de génio.
Vivi nos anos que se seguiram muitas tardes no Mário Duarte, umas mais agradáveis do que outras. Participei nas festas de subida,  na euforia da conquista da Taça, engoli lágrimas de raiva quando o clube foi despromovido. Apanhei correntes de ar e chuvadas nos Inverno, caloraças no Verão, desesperei muitas vezes com a azelhice dos avançados, com as mãos de manteiga dos guarda-redes, com a compreensão lenta (julgava eu) de alguns treinadores, com os erros inacreditáveis dos árbitros. Se a casa de um homem é o seu castelo, o estádio de um clube é o castelo dos seus adeptos. O Mário Duarte foi sempre o meu castelo. Mas nada do que ali se passou nos últimos 30 anos foi capaz de me fazer esquecer o dia em que o meu pai me levou à bola, em que me levou pela mão, Avenida das Tílias acima, e em que escutei pela primeira vez o rugido do mar que bate no coração de cada adepto.
Como se percebe, é com pena que vejo o Mário Duarte ir para a reforma, substituído por um novo estádio. Consola-me o facto de saber que ele vai ficar ali, à disposição dos aveirenses, no prolongamento do parque, a sossegar de uma vida inteira de emoções. Por mim, agradeço à Câmara de Aveiro e à Universidade de Aveiro terem conseguido encontrar uma solução que permita que o Mário Duarte não seja arrasado para dar lugar a mais um qualquer empreendimento urbanístico. O Mário Duarte faz parte da nossa memória colectiva e um povo sem memória é um povo que, mais tarde ou mais cedo, acaba por perder de vista o que é importante.Um dia destes hei-de ir despedir-me do Mário Duarte, agradecer-lhe o papel que teve na minha vida. E depois, quero pegar nas minhas duas filhas e levá-las pela mão ao novo estádio. Mostrar-lhes as bancadas coloridas, fazer-lhes notar como o estádio se assemelha um castelo de brinquedo com os seus torreões coloridos. Provavelmente já não vou encontrar pevides embrulhadas em papel de jornal, e de certeza que elas não vão ter a sorte que eu tive de ver no relvado um jogador como Eusébio. Mas quero acreditar que também elas serão capazes de sentir que o coração dos adeptos da bola continua a bater como as ondas do mar. O novo estádio é um orgulho. É uma beleza. É o nosso castelo. Havemos der ser felizes lá.

 

Crónicas de amor e ócio

Nação adversativa

 
Rui Baptista

(Sugestão de destaque: “Os portugueses são incapazes de um elogio franco, rasgado, genuíno. Têm inveja do sucesso, desconfiam do talento dos outros, roem-se com a beleza alheia, consomem-se com o carro novo do vizinho. Uns comportam-se assim porque foi assim que foram criados, outros agem de maneira adversativa por mera deformação de carácter. E há até quem tenha transformado esta maneira de ser tão portuguesa numa arte”)

1.Não sei se já repararam, mas vivemos numa Nação adversativa. Vivemos no país do “mas”, no país do “porém”, do “contudo”, do “não obstante”, do “todavia”. Querem exemplos? “Jorge Sampaio é bom Presidente mas faz discursos incompreensíveis”; “Luís Filipe Scolari é bom treinador mas tem mau-feitio”; “o Baptista até nem escreve mal mas tem a mania que é engraçado”; “a Marisa Cruz é gira mas já não é bio-degradável”; “o Benfica é um grande clube mas já não ganha nada há 10 anos”. E por aí fora.
Os portugueses são incapazes de um elogio franco, rasgado, genuíno. Têm inveja do sucesso, desconfiam do talento dos outros, roem-se com a beleza alheia, consomem-se com o carro novo do vizinho. Uns comportam-se assim porque foi assim que foram criados, outros agem de maneira adversativa por mera deformação de carácter. E há até quem tenha transformado esta maneira de ser tão portuguesa numa arte. Numa forma de vida, num ganha-pão. Essas pessoas são, de longe, as mais interessantes e talvez por isso algumas delas andem por aí, nas televisões, nas rádios, nos jornais e nos blogues a espalhar o perfume do seu talento.
O pior é que já não podemos viver sem elas. São os nossos “gurus” e são uma fonte inesgotável de divertimento e boa disposição. Digam lá: é ou não é divertido ver Manuel Maria Carrilho a escrever uma demolidora carta-aberta a Ferro Rodrigues no Diário de Notícias de manhã, e depois comentar a mesma carta à noite, na SIC, como se o Carrilho/comentador nunca tivesse sido apresentado ao Carrilho/militante-do-PS? É ou não é divertido ver como Pedro Santana Lopes faz de conta que despe o fato de presidente da Câmara de Lisboa/putativo-candidato-a-Presidente-da-República sempre que entra no ar como “comentador independente” na SIC? É ou não é divertido ver como Pacheco Pereira, que por acaso é eurodeputado eleito pelo PSD, paira sobre as nossas cabeças como uma espécie de corifeu benigno, de dedo em riste, de blogue em riste, de coluna em riste, de microfone em riste?
O adversativo que há dentro de mim (e que eu tento reprimir sem êxito) impele-me a dizer que “eles são bons mas nós não nos deixamos enganar”.  Mas o mais certo é estar redondamente enganado, para mal dos nossos pecados.

2. Parece que Maria Elisa vai renunciar ao seu lugar no Parlamento. Uso o condicional, porque com a nova conselheira de imprensa (ou é assessora cultural?) da embaixada portuguesa em Londres nunca se sabe. Com ela, nada parece ser definitivo. Ora está na RTP, ora está na Assembleia da República, ora está em Belgais, ora está em Londres. Ora está em todos os lugares ao mesmo. Onde ela quase nunca parece ter estado foi em Castelo Branco, distrito por onde foi eleita para o Parlamento. Ironicamente, na hora da despedida, escolheu o Fundão para explicar as prementes razões que a levam a rumar a Londres, o que só demonstra que mantém algum sentido de humor. As pessoas que a elegeram é que, provavelmente, não estão com disposição para graças.
A palavra ubiquidade parece ter sido criada de propósito a pensar nesta mulher, cujo lema de vida podia muito bem ser “been there, seen it, done it”. “Done it” mas pouco, claro, pelo menos a julgar pela sua produção parlamentar. Interveio num debate, fez um voto de protesto, fez um par de interpelações à mesa, um par de declarações de voto e...e é tudo!  Agora vai para Londres num processo tão transparente quanto uma porta de madeira de cedro. A sua passagem pelo Parlamento, pouco produtiva mas muito mediática, ajudou a minar ainda mais a confiança dos portugueses no seu órgão legislativo. Mas teve um lado divertido, quase humorístico, com todas aquelas zangas na Comissão de Ética e aquele gesto cavalheiresco do socialista António Costa, que apresentou Maria Elisa como “vítima da inveja nacional e da mediocridade dos seus colegas da RTP”. No final, todavia, o cavaleiro andante de Elisa, aquele que “torceu” a lei para que a jornalista/assessora/conselheira/deputada pudesse resguardar-se em Londres usava uma armadura cor de laranja. É lindo quando as histórias complicadas acabam bem!

 

Crónicas de amor e ócio

Pátria que nos pariu

Rui Baptista

(Sugestão de destaque: “Em cada esquina um pedopsiquiatra, em cada ser vivo um perito em questões judiciais, em cada lar um professor Marcelo. “Os portugueses são incapazes de dizer ‘não sei’”, avisam os redactores da Lonely Planet no guia sobre o nosso país. Estão certos. O português médio tem opinião sobre tudo. Sobretudo, tem opinião.”

 
1. E de repente, o país ficou cheio de especialistas. Especialistas em generalidades. Especialistas instantâneos. Ninguém está a salvo. Não vale a pena fugir. Eles estão em todo o lado, nas rádios, nas televisões, nos jornais, nos blogues, nas paragens de autocarro, nas salas de espera dos consultórios, nos bancos de jardim, nas mesas gastas de milhares de cafés e tabernas por esse país fora. Nesta coluna também, claro.
Em cada esquina um pedopsiquiatra, em cada ser vivo um perito em questões judiciais, em cada lar um professor Marcelo. “Os portugueses são incapazes de dizer ‘não sei’”, avisam os redactores da Lonely Planet no guia sobre o nosso país. Estão certos. O português médio tem opinião sobre tudo. Sobretudo, tem opinião. Lembram-se da famigerada “Lei da Rolha”? Pois finou-se. Paz à sua alma.
Vivemos num país melhor, agora que toda a gente diz o que lhe vem à cabeça? Vivemos num país mais evoluído, agora que temos gente que nos explica o mundo nas televisões? Vivemos num país mais justo, agora que peças judiciais que deviam estar em segredo de justiça aparecem nos jornais?  Em que país vivemos, afinal?
Nos últimos dias tenho percebido o que é sentir saudades do futuro.  Começo a entender, finalmente (mas eu sempre fui de compreensão lenta) por que razão Pessoa achava que faltava cumprir-se Portugal. Este é o país que quase chegou lá. O país do quase. “Um pouco mais de sol – eu era brasa, um pouco mais de azul – eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe de asa...Se ao menos eu permanecesse aquém...”. As palavras proféticas de Mário de Sá-Carneiro, lidas nos tempos que correm são uma lucidez feroz, amarga. No meio da confusão que por aí vai temos que nos agarrar à poesia como um náufrago a uma bóia. Pátria que nos pariu.

2. Contra a depressão, só o humor. Mesmo que involuntário. Nos moldes em que decorreu, o Dia da Defesa Nacional parece ter saído da imaginação delirante dos defuntos Monty Python. Os mancebos foram intimados a comparecer no Alfeite sob pena de pagarem uma coimazinha. As câmaras foram convidadas a assegurar transporte para a rapaziada mas baldaram-se (eu sei, esta expressão não é bonita) alegando que não dispunham de verba. No dia marcado lá apareceram uns rapazes ensonados, desconfiados, mal barbeados. A eles juntou-se, como um agente infiltrado, um dirigente da Juventude Centrista (ou das Gerações Populares, depende do “approach”), que ajudou à animação. Aos mancebos mostraram-lhe uns “gadgets”, levaram-nos nuns passeios de barco, propuseram-lhes uns exercícios mais ou menos radicais. Consta que houve até uns jogos de vídeo. “Pum, pum, estás morto, pá”! Três senhoras oficiais, cada uma representando um ramo das Forças Armadas, falaram mansamente aos rapazes sobre as virtudes de uma carreira militar. Depois foram todos para casa, com uma sandes de queijo, uma “caprisone” e o peito inchado de orgulho na Nação valente. Os que faltaram, afinal, tiveram a coimazinha perdoada. Parece que para o ano há mais. Eu, se puder, vou infiltrar-me como o militante da JC (ou das Gerações Populares, depende do “approach”). É mais barato do que passar um fim-de-semana num daqueles campos de desportos radicais. E, além disso, adoro “caprisone”. Viva a mocidade portuguesa!

3. Se eu me chamasse Ferro Rodrigues, fosse secretário-geral do PS e me estivesse “cagando para o segredo de justiça” lia com muito cuidado a carta aberta de Manuel Maria Carrilho. É que o professor não parece ter estofo físico para chegar lá (faz-lhe falta, provavelmente, passar pelo Dia da Defesa Nacional), mas é sempre o primeiro a sentir quando a presa está enfraquecida.

4. Um dia destes, a jornalista Manuela Moura Guedes arranca a cabeça do Miguel Sousa Tavares em directo na TVI. Antes que isso aconteça, talvez seja sensato arranjar alguém mais dócil para escutar os comentários do autor do excelente “Equador”. O professor Marcelo não pode continuar a beneficiar escandalosamente desta discriminação positiva em matéria de ajudantes, caramba!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
quinta-feira, março 04, 2004
  Crónicas de amor e ócio


Embirrações e bom senso


Sugestão de destaque: "O economista Steven Levitt Levitt cruzou dados estatísticos recolhidos nos Estados Unidos da América, e chegou a duas terríveis conclusões: crianças indesejadas, de lares desfeitos, têm maior tendência para se envolverem em actos criminosos; a criminalidade é mais baixa nos Estados em que a liberalização da prática da interrupção voluntária da gravidez ocorreu há mais tempo. Ou seja: mais abortos, menos crimes."

Rui Baptista


Eu não tenho um tio Olavo, como o brasileiro Edson Athaíde, mas já tive um tio Jaime, de quem gostava muito. Tal como o tio Olavo, a quem o publicitário que conduziu em 1995 a campanha vitoriosa de António Guterres recorre sempre que está com falta de assunto, também o meu tio Jaime era dado a aforismos. A aforismos e a embirrações. Quando tomava algo ou alguém de ponta, era capaz de andar anos e anos a alimentar uma antipatia surda, expressa em rosnidos ou frases assassinas.
Os economistas eram uma das embirrações mais duradouras do meu tio Jaime. Conta-se na família que ele perdeu uma pequena fortuna com as acções da EDP, compradas por conselho de um economista durante a segunda fase da privatização da empresa. A partir dessa altura, desenvolveu um desprezo profundo pelo trabalho desta classe profissional, indo ao ponto de pôr em causa a sua base científica. "A economia está para a verdadeira ciência assim como a astrologia está para a a astronomia", ouvi-o repetir vezes sem conta ao longo dos últimos anos.
A frase nem sequer é original, como descobri ao ler um romance de David Lodge em que ele dizia que "a ginástica está para o verdadeiro desporto como a masturbação está para o sexo". Com os seus "gurus" da moda e correntes de pensamento que brotam todos os dias como cogumelos, a economia (e disciplinas afins como gestão ou marketing) transmitem por vezes ao cidadão comum a ideia de alguma falta de exactidão. Dizia o tio Jaime que se juntássemos dois economistas na mesma sala e colocássemos a ambos a mesma questão, obtinhamos pelo menos quatro respostas diferentes. No mínimo.
Vem isto tudo a propósito do economista Steven Levitt, cujo perfil foi traçado pela revista brasileira Veja de 21 de Janeiro, na sequência de uma extensa reportagem publicada no Verão do ano passado pelo New York Times Magazine. Aos 35 anos, Levitt é um economista diferente. A sua área de estudo é a chamada "economia empírica", dominada pelo bom senso, na qual temas do quotidiano como a criminalidade, a discriminação racial ou a corrupção têm primazia sobre défices públicos, taxas de juro ou o índice Dow Jones. Mais do que um economista, Levitt é um cientista social, que combina a rigorosa recolha de dados com uma análise posterior despida de preconceitos. As suas investigações inovadoras valeram-lhe a medalha Clark, concedida de dois em dois anos pela Associação Americana de Economia e pela Universidade Vanderbilt, um excelente prenúncio para um eventual Prémio Nobel. Até hoje, 11 dos 28 agraciados com a medalha Clark ganharam o Nobel, entre os quais o economista Milton Friedman, um dos "gurus" dos chamados "Chicago Boys".
Acredito que o tio Jaime ia gostar de Steven Levitt. Alguns dos seus trabalhos mais conhecidos escapelizam temas como a criminalidade juvenil, a discriminação racial, os casamentos e os divórcios e até a corrupção nos torneios de Sumo, o desporto nacional japonês. Mas nenhum trabalho teve tanto impacto como o estudo sobre a legalização do aborto e a criminalidade ("The Impact of Legalized Abortion on Crime."). Levitt cruzou dados estatísticos recolhidos nos Estados Unidos da América, e chegou a duas conclusões terríveis: crianças indesejadas, de lares desfeitos, têm maior tendência para se envolverem em actos criminosos; a criminalidade é mais baixa nos estados em que a liberalização da prática da interrupção voluntária da gravidez ocorreu há mais tempo. Ou seja: mais abortos, menos crimes.
Esta frase é no mínimo inquietante e as suas implicações morais e éticas são muitas e extremamente delicadas. O próprio Levitt confessa que não tem a menor simpatia pelo aborto, no documento que pode ser acessado na Internet através da página oficial do economista (http://www.src.uchicago.edu/users/levit/).
Portugal não é a América, felizmente. Mas o estudo de Levitt merece ser discutido, agora que a eventual despenalização da interrupção voluntária da gravidez volta a estar na ordem do dia. No final do dia, tudo se resume a uma questão íntima, pessoal, de consciência. Mas é sempre melhor decidir quando se está o mais bem informado possível. Apesar de toda a sua rabugice, suspeito que o meu tio Jaime estaria de acordo com esta afirmação.
 
quinta-feira, novembro 06, 2003
  Mil palavras


Protestos de Outono

Rui Baptista
(Jornalista)
rui.baptista@ip.pt
http://suspeitosdocostume.blogspot.com


E aí estão eles outra vez nas ruas. Com apitos, cartazes, palavras de ordem e a gritaria do costume. Os protestos dos estudantes do ensino superior nem sequer são uma novidade. Chegam pontualmente no Outono, todos os anos, com a queda da folha. Aqui onde escrevo consigo ouvir o seu grito de guerra: “Não pagamos, não pagamos!” Pois...
É impressão minha ou os estudantes estão a perder o capital de simpatia que supostamente deveriam ter? Como se já não bastassem os disparates cometidos na recepção aos caloiros (e aquela história do assalto simulado a um banco é simplesmente pavorosa), a bestialidade de algumas práticas da chamada “praxe académica” e os exageros das Queimas, os estudantes do ensino superior ainda nos brindam todos os anos com protestos nas ruas por causa das propinas. Protestos que atrapalham o trânsito, complicam a vida dos cidadãos e infernizam a vida a milhares de portugueses. Não interessa o nome do ministro, a cor do Governo, o alcance da reforma. A luta continua! A vida é uma festa.
As manifestações estudantis são um “must” na sociedade portuguesa, e quem nunca participou numa que atire a primeira pedra. Só que as manifestações foram perdendo substância, carga ideológica, para se transformarem em verdadeiros “hapennings” onde a mensagem única, totalitária, se resume ao já conhecido refrão: “Não pagamos!”.
Os estudantes do ensino público têm o direito de se recusar a pagar propinas, claro. Até porque a vida não está fácil e quem tem filhos a estudar sabe como estas coisas pesam no orçamento familiar. Mas a forma como os estudantes têm vindo a protestar começa a a ser ridícula. Ora reparem: no Instituto Superior Técnico os protestantes organizaram uma churrascada; na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa foi servido um pequeno almoço de protesto; dirigentes da Associação Académica de Lisboa foram de propósito a Lisboa, na segunda-feira, buscar oito mil apitos, pelos quais pagaram 2.000 euros (400 contos); os estudantes do Porto gastaram 7.500 euros (1.500 contos) em autocarros, sandes e laranjadas para a deslocação a Lisboa. São gastos interessantes para quem anda a gritar aos quatro ventos que não paga. Só o dinheiro gasto pelos estudantes portuenses dava para 50 bolsas de estudo completas na Universidade de Aveiro. A este ritmo, talvez seja sensato que os estudantes procurem financiadores para os seus protestos. As cervejeiras, estou certo, não se importarão de contribuir com alguma coisinha...
Enquanto a malta anda pela rua a protestar, há coisas muito sérias que ficam por discutir. Não vejo, por exemplo, o mesmo empenhamento dos dirigentes estudantis na luta pela alteração dos valores de capitação das bolsas de estudo, de forma a alargar o número de estudantes apoiados pelo Estado. Não vejo o mesmo empenhamento na tentativa de aumento da dedução à colecta em IRS, cujo máximo não ultrapassa actualmente os 500 euros. Para quando uma verdadeira discussão sobre o regime de prescrições no ensino público (onde há alunos que andam 10 e 12 anos para acabar o curso)? Para quando uma verdadeira avaliação dos docentes? Para quando a redução da duração dos cursos, acompanhada de um reforço das especializações? Para quando a redução do número de cursos (Portugal tem 2.000 cursos no ensino superior, quase três vezes mais do que em Espanha)?
Em média, o Estado gasta por ano 4500 euros por estudante universitário. Os estudos indicam que a maioria dos estudantes que ingressam no ensino superior público pertencem a um nível sócioeconómico médio/alto, enquanto os jovens de famílias mais carenciadas estão no ensino privado, como grande sacrifício de quem tem que os sustentar. Neste cenário, faz sentido continuar a gritar simplesmente “Não pagamos!”?
Se não querem perder a guerra da opinião pública, os estudantes têm que mudar de métodos. Têm que mudar o disco. Até porque se eles não pagam, acabamos por pagar nós. Todos nós. Como é habitual.

 
quarta-feira, outubro 29, 2003
  Mil Palavras


O que vale uma vaia?

Rui Baptista
(Jornalista)
rui.baptista@ip.pt
http://suspeitosdocostume.blogspot.com

O que vale uma vaia como aquela que o primeiro-ministro recebeu na inauguração do novo estádio da Luz? Tem significado político suficiente para que Durão Barroso e o PSD metam as mãos à cabeça? Merece editoriais nos jonais e um fórum na TSF?
Negar a importância da vaia é negar a realidade. Mas é preciso contextualizá-la, claro. A vaia aconteceu num clima de festa (mas, em Portugal, as “festas” e as homenagens são sempre contra alguém, como se sabe) e sucedeu a vaias ainda mais ruidosas endereçadas a Gilberto Madaíl e a Valentim Loureiro. Ou seja, a “autoridade” foi contestada, como parece ser de bom tom nos dias que vão correndo. Pedro Santana Lopes, também ele sportinguista como Durão Barroso ( e como Jorge Sampaio, o único que passou incólume no novo “inferno” da Luz) conseguiu transformar a vaia em aplausos. Durão não teve a mesma sorte (começou até por escorregar nos degraus do púlpito) mas foi despedido com mais palmas e menos assobios. Todavia, foi um bocado patético ouvir Fialho Gouveia, o “speaker” de serviço no estádio (e ao ouvi-lo recuei 20 anos no tempo) apelar à boa educação da “família benfiquista”…
Por falar em recuar no tempo… Quatro ou cinco dias antes do dia 25 de Abril de 1974, o então Presidente do Conselho, Marcello Caetano, foi entusiasticamente aplaudido de pé por uma multidão que enchia o estádio do Restelo. Passados poucos dias desta entusiática manifestação, em que muitos na altura viram um sinal de vitalidade do regime, Marcello Caetano seria obrigado a sair do Quartel do Carmo num “Chaimite”, rodeado de povo que pedia a sua cabeça. O mesmo povo que dias antes supostamente o venerava e que permitiu que ele morresse no Brasil num exílio sem glória.
A importância das vaias é relativa, como se pode ver neste episódio. Mas ignorá-las pode ser um erro muito caro eo PSD tem que ter consciência disso. Na memória de toda a gente ainda está fresca a vaia que o então primeiro-ministro António Guterres recebeu no Pavilhão Atlântico, quando teve a péssima ideia de assistir ao encerramento do Open de Portugal em ténis. Nesse caso não foi o povo quem vaiou o primeiro-ministro – foram as elites. Mas as manifestações populares de desagrado pela maneira como o país estava a ser conduzido não tardaram a aparecer e nas eleições autárquicas (sim, porque é nas eleições que se avalia o desempenho dos políticos) Guterres foi simplesmente despedido pelo povo. Muita gente acha que Guterres fez mal em ir-se embora nessa altura, muitos acusam-no de ter fugido. Eu acho que ele não tinha outra saída se quisesse manter (como mantém) algum capital político que lhe permita um “come back” em grande, provavelmente daqui a dois anos e meio, nas presidenciais.
A vaia de Guterres é comparável à de Durão? Sim e não. “Sim”, porque ambas são ruidosas manifestações de desagrado. Desagrado em relação aos políticos (“esses malandros que só querem tratar da sua vidinha”, como diz cruelmente o cidadão anónimo) e desagrado em relação às figuras concretas e ao seu modo de actuar. “Não”, porque surgiram em contextos diferentes.
Guterres foi vaiado pelas elites quando o “guterrismo” já tinha entrado no seu estertor; Durão foi vaiado pelo povo porque o país está deprimido com tantos escândalos e porque a vida não está fácil para ninguém. Saber qual é vaia mais significativa do ponto de vista político é tarefa impossível.
Tenho para mim que Durão não “pagou a fava” apenas pelo rumo do país está a tomar. Tenho para mim que o primeiro-ministro foi vaiado como foi porque o povo sente, inconscientemente se calhar, que não existe hoje em dia alternativa a Durão e ao seu Governo de coligação. E não haver uma alternativa é terrível num sistema democrático. O PS, infelizmente, está amarrado, enredado, no caso Casa Pia. O seu secretário-geral está a prazo e ninguém (nem mesmo o inefável Carrilho) quer pegar no partido. O PS não tinha sequer ninguém de primeira linha na Luz para ser vaiado. Ou para ser aplaudido. E isto é triste e preocupante.
O país ( e o país somos todos nós) precisa de alternativas. Precisa de um PS forte, que fiscalize o Governo, que faça propostas, que represente uma esperança de mudança. De um PS que não se demita das suas obrigações. Isto não é uma declaração ideológica ou partidária – é uma simples questão de bom senso. Se a situação continua com está, ainda vamos ver o PSD a fazer um Governo-sombra ao seu próprio Governo de coligação. Candidatos a primeiro-ministro-sombra no PSD é coisa que não falta. Basta olhar à volta…
 
  Crónicas de amor e ócio

Pátria que nos pariu

Rui Baptista

1. E de repente, o país ficou cheio de especialistas. Especialistas em generalidades. Especialistas instantâneos. Ninguém está a salvo. Não vale a pena fugir. Eles estão em todo o lado, nas rádios, nas televisões, nos jornais, nos blogues, nas paragens de autocarro, nas salas de espera dos consultórios, nos bancos de jardim, nas mesas gastas de milhares de cafés e tabernas por esse país fora. Nesta coluna também, claro.
Em cada esquina um pedopsiquiatra, em cada ser vivo um perito em questões judiciais, em cada lar um professor Marcelo. “Os portugueses são incapazes de dizer ‘não sei’”, avisam os redactores da Lonely Planet no guia sobre o nosso país. Estão certos. O português médio tem opinião sobre tudo. Sobretudo, tem opinião. Lembram-se da famigerada “Lei da Rolha”? Pois finou-se. Paz à sua alma.
Vivemos num país melhor, agora que toda a gente diz o que lhe vem à cabeça? Vivemos num país mais evoluído, agora que temos gente que nos explica o mundo nas televisões? Vivemos num país mais justo, agora que peças judiciais que deviam estar em segredo de justiça aparecem nos jornais? Em que país vivemos, afinal?
Nos últimos dias tenho percebido o que é sentir saudades do futuro. Começo a entender, finalmente (mas eu sempre fui de compreensão lenta) por que razão Pessoa achava que faltava cumprir-se Portugal. Este é o país que quase chegou lá. O país do quase. “Um pouco mais de sol – eu era brasa, um pouco mais de azul – eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe de asa...Se ao menos eu permanecesse aquém...”. As palavras proféticas de Mário de Sá-Carneiro, lidas nos tempos que correm são uma lucidez feroz, amarga. No meio da confusão que por aí vai temos que nos agarrar à poesia como um náufrago a uma bóia. Pátria que nos pariu.

2. Contra a depressão, só o humor. Mesmo que involuntário. Nos moldes em que decorreu, o Dia da Defesa Nacional parece ter saído da imaginação delirante dos defuntos Monty Python. Os mancebos foram intimados a comparecer no Alfeite sob pena de pagarem uma coimazinha. As câmaras foram convidadas a assegurar transporte para a rapaziada mas baldaram-se (eu sei, esta expressão não é bonita) alegando que não dispunham de verba. No dia marcado lá apareceram uns rapazes ensonados, desconfiados, mal barbeados. A eles juntou-se, como um agente infiltrado, um dirigente da Juventude Centrista (ou das Gerações Populares, depende do “approach”), que ajudou à animação. Aos mancebos mostraram-lhe uns “gadgets”, levaram-nos nuns passeios de barco, propuseram-lhes uns exercícios mais ou menos radicais. Consta que houve até uns jogos de vídeo. “Pum, pum, estás morto, pá”! Três senhoras oficiais, cada uma representando um ramo das Forças Armadas, falaram mansamente aos rapazes sobre as virtudes de uma carreira militar. Depois foram todos para casa, com uma sandes de queijo, uma “caprisone” e o peito inchado de orgulho na Nação valente. Os que faltaram, afinal, tiveram a coimazinha perdoada. Parece que para o ano há mais. Eu, se puder, vou infiltrar-me como o militante da JC (ou das Gerações Populares, depende do “approach”). É mais barato do que passar um fim-de-semana num daqueles campos de desportos radicais. E, além disso, adoro “caprisone”. Viva a mocidade portuguesa!

3. Se eu me chamasse Ferro Rodrigues, fosse secretário-geral do PS e me estivesse “cagando para o segredo de justiça” lia com muito cuidado a carta aberta de Manuel Maria Carrilho. É que o professor não parece ter estofo físico para chegar lá (faz-lhe falta, provavelmente, passar pelo Dia da Defesa Nacional), mas é sempre o primeiro a sentir quando a presa está enfraquecida.

4. Um dia destes, a jornalista Manuela Moura Guedes arranca a cabeça do Miguel Sousa Tavares em directo na TVI. Antes que isso aconteça, talvez seja sensato arranjar alguém mais dócil para escutar os comentários do autor do excelente “Equador”. O professor Marcelo não pode continuar a beneficiar escandalosamente de
 
  Mil palavras

O Homem quer, a obra nasce

Rui Baptista
(Jornalista)
rui.baptista@ip.pt
http://suspeitosdocostume.blogspot.com


1. Está lindo o renovado Teatro Aveirense. Três anos depois do início das obras de requalificação, a centenária sala de espectáculos vai ser devolvida aos aveirenses (e não só) já no próximo dia 23. E, a julgar pelas promessas do director artístico, João Aidos, a programação prevista para o Aveirense é de fazer nascer água na boca. “Vamos ter circo, ópera, teatro, dança contemporânea, música clássica e alguns programas específicos”, desvendou aos jornais João Aidos, quem tem o objectivo louvável de colocar o Aveirense no calendário de programação de nível nacional.
A coisa promete. Pedro Burmester e a Filarmonia das Beiras vão ser as estrelas da abertura, mas já em Novembro arranca o Ciclo de Orquestras Nacionais, com a Orquestra da Gulbenkian, e realiza-se também a segunda edição do festival “Sons em trânsito”, que vai trazer à cidade, entre outros, a bela e talentosa Susheela Raman. E para quem, como eu, viu os primeiros filmes da sua vida no Aveirense, é gratificante saber que o cinema vai regressar também à renovada sala de espectáculos. Melhor era impossível.
A reabertura do Aveirense não se esgota na festa. É um momento carregado de significado por aquilo que representa para a cidade e para a região. É a prova de que mesmo os sonhos mais improváveis podem tornar-se reais desde que haja vontade, preserverança e alguma teimosia. Faça-se justiça: o Aveirense vai reabrir porque Alberto Souto soube perceber que a boa gestão municipal também passa pela Cultura (assim mesmo, com maiúscula). E se muitas vezes o presidente da Câmara merece reparos negativos pela sua actuação, desta vez merece o aplauso rasgado de todos aqueles que amam a sua cidade (adoptiva ou não). Pode haver quem diga que o autarca não fez mais do que a sua obrigação, mas isso não deve impedir ninguém de reconhecer que está ali uma bela obra, que nos enriquece a todos.

2. Num plano mais político, refira-se que a reabertura do Aveirense é apenas um passo numa gestão que está a mudar a face da cidade. Aveiro deve muito à gestão de Girão Pereira, que lançou as linhas orientadoras do que deve ser uma cidade média como Aveiro. Para além de tratar das questões essencias (abastecimento de água, saneamento, etc.), Girão teve o mérito de conseguir manter fora do centro da cidade os tenebrosos arranha-céus que desfiguram tantas terras por esse país fora (excepção feita a esse “pudim” mandado construir pela administração central e que dá pelo nome de Centro Regional de Segurança Social). Teve ainda o mérito de conseguir quebrar a barreira física (e também psicológica) que constituía a linha ferroviária do Norte, que estava a asfixiar o crescimento da cidade, embora tenha sido decisiva, noutros tempos, para colocar Aveiro no mapa do desenvolvimento.
Em resumo, porque o espaço escasseia: Girão lançou as infrestruturas de base, deixando para o seu sucessor (e vamos considerar o consulado de Celso Santos um prolongamento natural do “gironismo”) a missão de aumentar a qualidade de vida dos cidadãos. E Souto tem estado à altura do desafio. Soube perceber a relação tremendamente afectiva que os aveirenses têem com a sua cidade, lançando meia-dúzia de projectos que vão marcar o concelho e a região por muito tempo. É verdade que nem tudo está a correr bem (asfixia financeira da autarquia, dívidas a fornecedores, etc.), mas o autarca tem obra para mostrar. E daqui até às eleições autárquicas pode dar-se ao luxo de inaugurar uma obra importante a cada par de meses.
Cada um à sua maneira, Girão Pereira e Alberto Souto foram (estão a ser) decisivos para a afirmação de Aveiro. E as paixões partidárias ou os ódios pessoais não podem escamotear esta verdade.
 
terça-feira, outubro 07, 2003
   
  Prémio de consolação?
Mas há uma pergunta que ainda não vi respondida: será que Martins da Cruz não avaliou que ia colocar o seu colega do Governo numa situação insustentável ao permitir que a filha fizesse o requerimento que se revelou fatal?


1. A instalação em Aveiro do Gabinete de Estudos e Planeamento (GEP) do Ministério das Cidades, Ordenamento do Território e Planeamento é uma genuína medida de descentralização ou não passa de uma bem urdida manobra de relações públicas?
A pergunta pode parecer impertinente, principalmente numa altura em que a região ainda festeja a novidade, mas não é totalmente deslocada. Vejamos: o organismo anunciado pelo ministro Amílcar Theias não tem sede ou lei orgânica própria, desconhecendo-se ainda qual vai ser o seu papel ou quais vão ser as suas atribuições. Todavia, já se sabe que vai ser dirigido pelo social-democrata Álvaro Santos, um jovem quadro de Ovar que iniciou a sua carreira política na JSD.
Ou seja, por muita boa vontade que se tenha relativamente ao GEP, e por muito respeito profissional (e, no meu caso, até pessoal) que se tenha por Álvaro Santos, não é despropositado perguntar se o novo organismo não foi criado à medida. À medida do interesse partidário, claro.
Aveiro só poderá ganhar com a instalação do GEP se tudo for transparente. É preciso que a lei orgânica seja publicada rapidamente, e é preciso que Álvaro Santos diga ao que vem. Promessas vagas de colaboração com as comissões de coordenação e desenvolvimento regionais no âmbito do quadro comunitário de apoio não chegam. E é preciso também que os responsáveis pelo nascimento do GEP esclareçam qual é o seu posicionamento em relação ao pioneiro curso de planeamento da Universidade de Aveiro, e até em relação à Associação Portuguesa de Planeadores de Território, sediada nesta cidade.
Esta táctica de primeiro escolher os nomes e só depois definir as competências do GEP é um caso que dá que pensar, e que reflecte a maneira como em Portugal se trata dos interesses públicos. Ou seja: a instalação em Aveiro do GEP pode ser uma coisa boa, capaz de se tornar um marco na maneira como cidades médias se relacionam com o poder central. Mas, para já, mais parece um prémio de consolação pelas muitas valências que a cidade e o distrito foram perdendo ao longo dos últimos anos. O que não sendo mau, também está longe de ser bom.

2. O Governo esboroa-se. Agora foi Pedro Lynce a cair por um erro de principante, ainda por cima numa altura crítica no sector da Educação. O primeiro-ministro vai adiando a remodelação e está no seu direito, mas o calendário político e as “gaffes” de alguns dos seus colaboradores não lhe dão tréguas. E por isso vamos assistindo ao triste espectáculo da queda de ministros por motivos que não lembram ao Diabo, e à saída de secretários de Estado que não se conformam com o papel de ajudantes. Sobre a saída de Pedro Lynce já foi quase tudo dito e escrito. Mas há uma pergunta que ainda não vi respondida: será que Martins da Cruz não avaliou que ia colocar o seu colega do Governo numa situação insustentável ao permitir que a filha fizesse o requerimento que se revelou fatal?
Não chega o ministro dos Negócios Estrangeiros vir jurar que nunca meteu pessoalmente nenhuma “cunha” ao seu colega Lynce. Há nesta história uma falta de bom senso inacreditável, somada a uma apreciável desfaçatez. Mas há também uma demonstração clara de que, embora esteja mais corporativo do que nunca, Portugal mudou. Mudou, muito e para melhor. Só Martins da Cruz permanece incorrigível na sua arrogância. Será que primeiro-minsitro precisa assim tanto dele? Será ele indispensável para o país? Aposto que as respostas a estas perguntas chegarão mais rapidamente do que se imagina.

3. O Beira-Mar está em grande. Em estado de graça. António Sousa deu centímetros e quilos à equipa com a entrada de jogadores como Zeman, Wijnhard, Alcaraz, Sandro, Kata e esse endiabrado Kingsley, a nova coqueluche dos adeptos aurinegros. Com uma guarda de honra desta envergadura, Juninho e Marcelinho sentem-se livres para encher os relvados com técnica e fantasia. É um orgulho ver a equipa tão bem na véspera de mudar para o novo estádio. É um orgulho ver o novo estádio e saber que os apertado prazos de construção foram respeitados. Só não gosto da maneira como pintaram o recinto. Mas é melhor ter um estádio arquitectonicamente interessante pintado como uma tenda de circo do que não ter estádio nenhum.
 
  Estamos de volta! 
quinta-feira, outubro 02, 2003
  www.publico.pt 
quarta-feira, outubro 01, 2003
  http://www.publico.pt/ 
segunda-feira, julho 28, 2003
  Pedro santana LOpes levou com uma bola de ténis num olho e parece que teve de receber tratamento hospitalar. Desculpem, mas esta história dá-me vontade de rir. É mais forte do que eu, ehehehehehehehehehehehehehehehheheheheheheh 
  Rui Rio. Vi-o há dias num programa cor-de-rosa na SIC, tentando mostrar o seu lado afável. Tentando mostrar que é um homem culto, moderno, elegante. Que não é um sectário. Que não está acabado para a política. Que os portuenses podem confiar nele. Tentando mostrar indiferença perante as provocações que chegam de Gaia, tentando lançar pontes para as Antas, piscando o olho ao país. Rui Rio. Ainda é cedo para desistir dele. Ainda é cedo para desistir de um Porto menos paroquial, menos bacoco, menos dado a gestos ridículos e a polémicas estéreis. Ainda é cedo para lhe escrever o elogio fúnebre. Um pouco mais de azul e ele voa. Será ele o único a acreditar que o jogo ainda não terminou? Que a equipa pode estar a perder, que o árbitro pode estar a fazer vista grossa a algumas entradas à margem da lei, mas que há maneiras de dar a volta à partida? Chega de jogar no contra-ataque. Às vezes é preciso marcar o ritmo, crescer sobre o adversário, passar a bola para trás para melhor preparar a ofensiva e nunca desistir. Da última vez que Rio agiu assim ganhou as eleições para a câmara do Porto. Há muita gente à volta dele que já se esqueceu disso. 
  Another one bites the dust...Mais um general bateu com a Porta, por ter perdido a confiança em Paulo Portas. Assim vão as Forças Armadas Portuguesas: de demissão em demissão até que o Ministro consiga colocar todos os seus homens em lugares-chave. Os militares regem-se por um código de honra; o ministro usa as regras de um jogo de vídeo, daqueles em que se mata e esfola até o écran ficar "melado de sangue", para usar uma bela expressão brasileira. Portas não frequentou o Instituto de Altos Estudos MIlitares, não fez-pós graduações em Estratégia ou Tácticas de Guerrilha, não tem mestrados em Contra-Informação. Mas é um adversário temível. Passou pela escola do Independente, licenciou-se no PP de Monteiro, tirou o mestrado na Moderna. A farda dele são os fatos de Saville Road e as gravatas Hermés. Usa o cargo de Ministro da Defesa como se tivesse na mão um joystick. Não tira os olhos do écran, ganha vidas suplementares, adora a má-língua das trincheiras e, quando é preciso, atira para o ar um verylight capaz de épater le bourgeois. Tem uns ajudantes de campo capazes de dar a vida por ele. Inspira dedicações caninas e cultiva ódios de estimação. É capz de nos convencer que está a trabalhar por nós, que está a deixar obra, que é um reformador.Dorme com um olho aberto e o revólver debaixo do travesseiro. Colecciona livros sobre a CIA e o FBI, não perde um romance de Le Carré, é amigo de Donald Rumsfeld e consta que está a um passo de assinar contrato com a Casa Branca por dois anos, com opção por mais quatro. Os militares não têm nenhuma hipótese. Resta-lhes renderem-se, combater até ao último homem ou esperar que Durão Barroso saia das próximas eleições legislativas numa situação que lhe permita dispensar o seu cabo-de-guerra. Banzai 
  Vem no Euro Notícias (conhecido na gíria como o EuroDisney): a secretária-eral da Nova Democracia comparou Manuel Monteiro a Sá Carneiro. "Depois de Sá Carneiro, só Monteiro", disse a senhora. A afirmação seria muito divertida se não fosse tão trágica. 
  Morreu Bob Hope. Aos cem anos! Há pouco tempo desapareceu Gregory Peck, logo a seguir foi-se a mítica Katherine Hepburn. Os heróis das minhas (nossas) tarde de cinema de domingo à tarde estão a desaparecer. É mais uma parte da nossa memória que se apaga. Quando eu era miúdo Bob Hope já era velho, muito velho. Mas como vou eu esquecer o seu sorriso largo, a sua tacada no golfe, a piada pronta, as deslocações com as tropas americanas na II Guerra, na Coreia, no Vietname, no Panamá. Bob Hope era uma espécie de nosso tio nas Américas. Um homem para todos os presidentes, pronto a consumir como a Coca-Cola, mais americano que a tarte de maçã. Era produto genuíno. O mundo perdeu um comediante razoável, os americanos perderam um ídolo, George W. Bush perdeu um potencial aliado. E que jeito dava ao W ter um Bob Hope de boa súde para visitar os soldados no Iraque. Dar moral às tropas. distraí-los com piadas e piscadelas de olho. Corrijo: W não precisa de um Bob Hope - precisa de centenas de Bob Hope. E de uma dúzia de Marilins e outras tantas Mae West e por aí fora. Se calhar precisa até de uma Monica Lewinsky que distraia a atenção dos americanos do que está a acontecer no Iraque. É isso: W precisa da sua Monica Lewinsky. Precisa de alguém que lhe sugue a tensão, que consiga fazê-lo relaxar os músculos contraídos, que desvie a atenção dos media para motivos mais fúteis, mais comezinhos. Arranjem um Monica para o homem já. Eu, por mim, contribuo com cem dólares para essa missão de caridade. Afinal, sempre me considerei um filantropo.... 
segunda-feira, julho 21, 2003
  Aproveito que tenho um bocadinho livre para deixar aqui duas ou três coisas:
1. O que se está a passar com o Mário Duarte é notável. A autarquia e a Universidade, por uma vez, estão de acordo em salvaguardar o estádio, no coração da cidade, resistindo ao ímpeto urbanizador que assola (e desfigura) o país inteiro. A Câmara abdica de receitas, a Universidade faz um esforço financeiro, e quem fica a ganhar são os aveirenses, que passam a dispor de um espaço de fruição, de lazer. E vem agora o Tribunal de Contas intrometer-se? E a autonomia financeira das Universidades? E a vontade da autarquia? E o bem-estar dos aveirenses? Querem que se repita em Aveiro o que se está a passar em Coimbra?
A decisão de construir o novo estádio do Beira-Mar fora da cidade foi acertada e a magnifíca obra que ali está só nos orgulha; a decisão de manter o Mário Duarte intacto foi acertadíssima. Em nome da nossa (e dos nossos filhos) qualidade de vida estou dispo´nível para travar este combate. Se construirem prédios em cima do relvado do Mário Duarte não quero que digam de mim que fui conivente com este crime de lesa-Aveiro...
2. A CDU apresntou uma inócua moção de censura na AM de Aveiro, que teve o único mérito de expor, mais uma vez, como é frágil a situação financeira da autarquia. Alberto Souto já percebeu que a arrogância (soberba, talvez seja mais exacto) que marcou o seu primeiro mandato não pode continuar. Alguns dos seus colaboradores é que ainda não perceberam isso...
3. Sexta-feira passada os Suspeitos lançaram-se ao mar e à ria a bordo do Sultão dos Mares...e mostraram, como dizia o poeta, que não se nasce impunemente nas praias de POrtugal.
4. Ferro Rodrigues: o homem que nunca será primeiro-ministro! E esta, hein?
5. Alguns juízes andam doidos. Aquilo que o juíz do caso Casa Pia fez à defesa de Paulo Pedroso pode ser legal mas é muito duvidoso no plano moral. Infelizmente, o advogado Celso Cruzeiro não conseguiu explicar aos portugueses uma coisa simples: que o juíz tinha usado um truque barato para impedir que a Relação apreciasse o recurso de Pedroso.
A juíza Ana Beatriz ainda não foi nomeada e já dá entrevistas como se fosse a titular do processo da Casa Pia. A outra juíza, Conceição Oliveira, voltou a mostrar que está melhor quando não diz rigorosamente nada....e por aí fora. Quem acende a luz? 
  Meus caros:
por motivos profissionais tenho ligado tão pouca atenção a este blog que, por vezes, deixo até escapar coisas interessantes. Coisas como este e-mail que nos chegou do Brasil através do endereço suspeitos@aeiou.pt. Pedindo desculpa ao remetente pelo atraso (e também aos outros suspeitos, sejam eles honorários, efectivos ou simpatizantes...) aqui fica a mensagem de Sérgio Cruz. Para já fica só a mensagem, para depois prometo um comentário...



Ao Senhor Rui Baptista,
Portugal

Tive prazer em ler as crônicas de sua visita \"aos
brasis\" pela simpatia com que descreve sua passagem
pelo Recife; fiquei cheio de saudades (vivo
actualmente em Santa Cruz, mas sou \"nascido e
criado\" no Recife). Há coisas interessantes... se
um espanhol, um alemão ou um inglês descreve suas
impressões de uma visita ao Nordeste, ouve-se com
atenção, curiosidade. Mas se as impressões em
questão são as de um português, parece que a
reverência é maior. Às vezes desconfio que a
separação política da antiga metrópole ainda não
foi inteiramente seguida de uma separação afectiva
(aliás, a quem isso serviria?). Não é por nada que
antigamente (não sei precisar em que século) o
outro nome de Recife era o de \"Nova Lusitânia\". E
que volte sempre a Pernambuco, Senhor Rui, é muito
bem-vindo! Se for de novo por lá, permito-me lhe
sugerir fazer visita ao casarão, hoje transformado
em Museu, de Gilberto Freyre, ilustre pensador
pernambucano já falecido que, me parece, sempre
teve presente a necessidade de se passar primeiro
pelo Tejo para se poder compreender (\"perceber\") o
Capibaribe (principal rio a cortar Recife).
Um abraço,
Sergio Cunha.

 
  Caríssimos!!!
Alguém viu a crónica do Luis Fernando Veríssimo na revista do "Espesso"? É deliciosa como a maioria das coisas que ele escreve! Recomendo vivamente...

teresa barreto xavier
 
sexta-feira, julho 18, 2003
  Crónicas de amor e ócio

Unidos na diversidade?

Rui Baptista



1.No meio da confusão que por aí vai (e este “aí” inclui o mundo inteiro) há pequenas notícias que nos reconciliam com a vida. Como esta, por exemplo, revelada na Newsweek da semana passada: 60 anos depois do III Reich e do Holocausto (sem aspas e com maiúscula, porque há factos que nos merecem todo o respeito) a Alemanha passou a ser o principal país de acolhimento para os judeus que têm vindo a abandonar os países que integravam a antiga União Soviética. Só no ano passado, a Alemanha acolheu 19.262 judeus provenientes do Leste. Nesse mesmo período, Israel recebeu 18.878 judeus de países como a Rússia, Letónia ou Ucrânia, enquanto os Estados Unidos da América (destino tradicional da diáspora judaica após a Segunda Guerra Mundial) receberam menos de dez mil pessoas.
Muitas destas pessoas fogem do anti-semitismo crescente nos seus países de origem, outras chegam à Alemanha apenas à procura de uma vida melhor para si e para os seus. Alguns emigrantes são judeus apenas de nome, uma vez que o ateísmo oficial que vigorava durante o regime soviético levou ao abandono de práticas religiosas e do estudo do Talmude. Nas mais de 60 sinagogas que foram construídas ou restauradas nas principais cidades alemãs e nas “yeshiva” que florescem pelo país ensina-se de tudo, desde a história do judaísmo até à maneira de celebrar o Sabath.
Que isto esteja a acontecer na Alemanha é um caso extraordinário, que nos devolve alguma da confiança perdida na espécie humana. “Que melhor vingança contra Hitler do que pegar em 100 crianças judias felizes (…) e passear com elas nas velhas ruas de Berlim?”, pergunta na Newsweek o rabino Yehudi Teichtal.
Mas o regresso em massa dos judeus à Alemanha não pode ser encarado como uma vingança e muito menos como uma ameaça, mas antes como uma sinal de normalidade. E como um passo, também, no longo, penoso e quase sempre doloroso processo de reconciliação dos alemães com o seu passado mais ou menos recente. Tão doloroso que os alemães escolheram para o definir uma daquelas palavras que só eles são capazes de criar (“Vergangenheitsbewaltigung”), cuja simples sonoridade parece traduzir angústia e penitência. Mas também redenção.
Pode dizer-se muitas coisas dos alemães, mas nunca poderá dizer-se que não têm feito um esforço notável, geração após geração, para ajustar contas com o passado, de uma maneira quase obsessiva. Talvez por isso tenham doído tanto as palavras apressadas (para dizer o mínimo) de Sílvio Berlusconi no Parlamento Europeu. O primeiro-ministro italiano pode invocar todas as atenuantes possíveis ( e também eu li a versão dos acontecimentos dada por Pacheco Pereira no seu “blog”), o senhor Martin Schultz pode ser um deselegante “chato de galochas” nutrido (e bem nutrido) por um esquerdismo serôdio, mas referências a “campos de concentração” e a “kapos” só ajudam a desmentir a frase que Giscard d’Estaing escolheu para definir a nova Europa: “Unidos na diversidade”. Tudo o resto (“Nix bella Italia”, as patetices do “Bild” e os dislates de Stefano Stefani) não passa de folclore. Basta ler o tom jocoso como a imprensa norte-americana tratou o caso, para perceber como o incidente serviu para diminuir as chances de uma Europa capaz de se afirmar como alternativa a uns EUA cada vez mais preocupantes. Este fim-de-semana, no Texas, George W. Bush recebe no seu rancho Silvio Berlusconi, uma honra até aqui apenas concedida a Tony Blair. Teme-se o pior.
2. Fareed Zakaria, o editor americano de origem árabe da Newsweek que a Casa Branca gosta de tolerar, fez as contas, mais ou menos por alto: a intervenção no Iraque está a custar aos contribuintes americanos cerca de 4 mil milhões de dólares por mês. E está a custar um número indeterminado de vidas nos dois lados da barricada. Para diminuir os custos da ocupação, a administração Bush estava a contar que a Índia enviasse 17 mil soldados para a região curda de Mosul. A resposta do Governo de Bihari Vajpayee foi um não redondo. Entretanto, os Democratas acordaram do torpor patriótico e começam a pôr ferozmente em causa os argumentos que conduziram os EUA à guerra do Iraque. O fim desta história ainda está muito longe e promete ser surpreendente.

PS- Luís Filipe Menezes e Rui Rio voltaram a pegar-se. Como quase sempre acontece, o rastilho foi aceso por Menezes, que anunciou que vai avançar para a câmara do Porto para logo a seguir vir dizer o contrário. Há ali uma questão mal resolvida entre os dois. Há uma questão mal resolvida, também, entre Menezes e Durão Barroso. Rio, apesar do brinde do Conselho de Ministros no Porto parece a caminho de chocar de frente com o primeiro-ministro. Não será caso de solicitar ajuda clínica para resolver a situação, que só diminui o Porto e o Norte? Contratar a psiquiatra do Tony Soprano, por exemplo…
 
sábado, julho 12, 2003
 


O Tony Cravo Roxo, depois de uma longa ausência, mandou esta mensagem:



Cá para mim, toda a gente aguarda delicadamente a chegada da silly
season e, com medo de ser silly, anda caladinha que nem um rato...
...e as férias ainda tão longe!!!!
Tony.


 
  Pois os suspeitos fizeram um jantar de início de férias...no Clube de Vela da Costa Nova, onde o suspeito honorário Rui Bela comemorava tb os 37 anos. O jantar meteu peixinho grelhado, cataplana, charutos e champanhe (oferecido pelo aniversariante) e muita má língua. E depois ainda houve tempo para uma passeata pela Costa a gozar a noite doce. Planos para o futuro foram traçados, claro, e sempre podemos adiantar que os suspeitos vão regressar em força após Agosto (ou em qualquer momento por motivo de força maior). Para já vão lançar-se à Ria na sexta-feira no Sultão dos Mares para uma caldeirada das antigas e depois vão receber por aí uns governantes e outras figuras (e figurinhas e figurões) numa orgia gastronómica no refúgio-quinta-herdade-bunker do Vítor, no dia 30 de Julho. Viva o Verão, caramba. Abraços 
terça-feira, julho 08, 2003
  Já agora, aqui fica a crónica-resumo da ida aos brasis

Crónicas de amor e ócio

Bilhetes do Brasil

Rui Baptista


(Sugestão de destaque: “Na TV Globo, o presidente Lula da Silva garante que vai ceder às reivindicações do Movimento dos Sem Terra, procedendo ao assentamento de 100 mil famílias até ao final do ano. Mudo para a Bandeirantes. O presidente Lula da Silva anuncia que vai ceder aos pedidos dos magistrados brasileiros para terem um regime especial de reformas. Mudo para a TV Record. Um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus jura que “Deus é fiel” e pede dinheiro aos crentes. Regresso à Globo. Lula da Silva está a garantir que vai ceder aos pedidos não sei de quem. Dias mais tarde, em Portugal, o cantor Djvan diz-me, em entrevista, que “Lula vai dar a vida pelos brasileiros”. A mim, também me quer parecer que sim…”)

1.O Brasil tem uma capacidade inesgotável de nos surpreender. Quando alguém pensa que já viu tudo (“been there, seen it, done it”) depara com alguma coisa ao virar da esquina capaz de o deixar de boca aberta. Na semana passada, por exemplo, a prefeitura do Rio de Janeiro abriu uma dúzia de vagas para “gari” (ou catador de lixo, como diz a imprensa local. No primeiro dia apareceram 15 mil candidatos. 15 mil! E esses 15 mil eram apenas os candidatos cujo sobrenome (apelido) começa pelas letras A e B. A Globo transmitiu imagens em directo do Sambódromo, com a ajuda de uma câmara de televisão montada num helicóptero. Os candidatos acotovelavam-se numa fila espessa, suada, que dava a volta ao quarteirão, sob um calor sufocante. Duas, três, quatro brigas rebentaram ao longo do dia. A polícia, fortemente armada, interveio prontamente, lançando granadas de gás lacrimogénio que só aumentaram a confusão. No dia seguinte, reservado para os candidatos a “gari” cujos sobrenomes começavam pelas letras C e D apareceram oito mil candidatos! A este ritmo, vai chegar-se facilmente aos 100 mil candidatos para catadores de lixo antes que se esgote o alfabeto. Moral da história: nesse mundo desgraçado há sempre alguém em situação pior do que a nossa. Triste consolo.


2. Shopping do Recife, Pernambuco. Entra-se na Siciliano como num templo. De um lado prateleiras corridas com as obras daqueles escritores brasileiros que só chegarão a Portugal dentro de meses, ou que pura e simplesmente nunca atingirão o mercado luso. Do outro, escaparates cheios com discos e DVDs com alguma da melhor música brasileira. Sinto-me como uma criança numa loja de doces. Pego no último Veríssimo com as suas crónicas de cinema. “A segunda melhor coisa que se pode fazer no escurinho do cinema é ver um filme”! Vá escrever bem assim no inferno, como dizem os nativos. E mais um romance de Torero, outro de Mário Prata (James Lins), umas coisas antigas de Ubaldo Ribeiro e de Paulo Mendes Campos. E o outro Campos, o Roberto, conhecido por Robert Fields pelas suas ideias radicalmente liberais. E depois os discos: Pedro Luís e a Parede, Otto e Lenine (afinal estamos no Recife), os Titãs e a melhor banda do mundo esta semana. E o DVD de “Os Normais” (será que funciona deste lado do Atlântico?), com o humor corrosivo de Fernanda Young e as interpretações notáveis de Luís Fernando Guimarães e da deliciosa Fernandinha Torres. O Brasil que escapou às novelas da Globo. Aproximo-me da caixa para pagar. A empregada da caixa elogia-me o português. “Você fala tão bem que dá para entender tudo”, diz ela, com um sorriso que mostra o aparelho corrector dos dentes, com estrelinhas amarelas. “É normal, afinal sou português”, respondo eu. E aí ela diz a frase que me vai arruinar o dia: “Fala-se português em Portugal? Sabia não…”

3. Praia da Boa Viagem, Recife. Indiferente à chuva, uma multidão vestida com “sungas” e biquinis admira um tubarão estendido no calçadão, esventrado. O bicho mede 2,37 e tem uma dentadura de respeito (mas não tão respeitável quanto a da menina do “Shopping do Recife). Na véspera desapareceu uma criança na praia e por isso dois homens remexem as vísceras do tubarão, a ver se encontram os restos do menino. Há quatro meses um bicho devorou um homem em frente aos prédios fortemente vigiados da Boa Viagem mas não conseguiu digerir-lhe os pés. Desta vez o tubarão tem a barriga vazia, para meu grande alívio. Um autocarro arranca cheio de turistas, cansados do espectáculo do bicho esventrado. Na parte de trás, o autocarro tem um anúncio de pastéis de nata que reza assim: “O pastel é português, o preço é piada!” Começo a sentir alguma simpatia pelo tubarão…

4. Na TV Globo, o presidente Lula da Silva garante que vai ceder às reivindicações do Movimento dos Sem Terra, procedendo ao assentamento de 100 mil famílias até ao final do ano. Mudo para a Bandeirantes. O presidente Lula da Silva anuncia que vai ceder aos pedidos dos magistrados brasileiros para terem um regime especial de reformas. Mudo para a TV Record. Um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus jura que “Deus é fiel” e pede dinheiro aos crentes. Regresso à Globo. Lula da Silva está a garantir que vai ceder aos pedidos não sei de quem. Dias mais tarde, em Portugal, o cantor Djvan diz-me, em entrevista, que “Lula vai dar a vida pelos brasileiros”. A mim, também me quer parecer que sim…



4. Lisboa, sete da manhã. O avião da Tap proveniente aterra na Portela, trazendo a bordo uma dúzia de portugueses ensonados e muitos brasileiros e brasileiras esperançados numa melhor vida na Europa. Abro algumas edições recentes do PÚBLICO, ávido de notícias da “terrinha”. “Durão promete revolução sem despedimentos na Função Pública”. Pois. “Governo demite em bloco a administração da Casa da Música”. Sampaio sai em defesa de Burmester. Como era de esperar. Trinta deputados que estiveram em Sevilha a assistir à final da Taça Uefa querem ter as faltas no Parlamento justificadas, alegando que estavam em missão política. Ai que saudades do Brasil, ai, ai…


 
  Vocês sabiam que as quatro miúdas do Sexo e da Cidade estão a caminho de Portugal? Não? POis estão. E a propósito: começou a silly season também neste blog

Sexo e a Cidade

Ai, ai, ai, Portugal-Rico


A coisa começou como sempre: duma maneira bastante inocente. Eu estava na cama com o mr. Big num domingo à tarde, ele a fumar um Cohiba e a tentar ler o New York Times e eu só de calcinhas verde-lima a escrever no “laptop” um artigo para o New Yorker sobre a ejaculação feminina quando o telefone tocou. Era a Miranda. A Miranda lavada em lágrimas. “Carrie”, soluçou ela, “o John acabou tudo por eu não lhe ter querido bater com um jornal enrolado”. A minha primeira vontade foi dizer “eu bem te avisei”, mas controlei-me e tentei consolá-la dizendo as tretas habituais: “Os homens são uns cães, só pensam no seu prazer egoísta, estão-se lixando para os preliminares e etc”.
O John é um executivo muito bonito mas com poucos miolos que a Miranda conheceu num seminário em Tribeca para corretores de Wall Street com comportamentos sexuais desviantes. A Miranda foi lá só para se rir, mas quando viu os bíceps do John a querem saltar do fato Gucci ficou rendida. A primeira vez que foram para a cama ele retardou o orgasmo entoando as cotações da bolsa como um mantra. Na segunda vez, pareceu-lhe que ele gritou “Greenspaan” quando se veio. Ontem à noite parece que ele quis que ela lhe batesse com o Finantial Times. Foi a gota de água.
“Querida”, disse eu, “vais sair dessa cama imediatamente e vamos as duas ao Manolo Blahnik comprar uma dúzia de sapatos de saltos agulha”. Mas a resposta da Miranda surpreendeu-me: “Sapatos só não chegam. Eu quero ir embora de Nova Iorque. Eu quero ir para Portugal. Eu quero ir para o Porto”. Lá ao fundo ouvi a voz da Maria, a empregada porto-riquenha da Miranda, aquela que lhe passou a arrumar o vibrador junto aos utensílios de cozinha e que deve ser a responsável por esta súbita vontade da patroa de fugir para os trópicos.
Sair de Nova Iorque. Abandonar a Cidade. Ir enfiar-me algures na América do Sul, enquanto a Miranda curte a sua fossa. Deixei-a pendurada em linha e liguei para a Samantha. Atendeu-me ofegante, como sempre. “Interrompi alguma coisa, querida”, perguntei eu, cheia de segundas intenções. “Nada de especial, estou só com o meu ‘personal trainer’ à procura do ponto G”, riu-se ela. A Miranda adorou a ideia de deixar a Cidade durante uns tempos. “Li na Cosmo que os portugalenses são muito acavalados”, garantiu. Mentira. Com as quecas que dá, a Samantha não tem tempo para ler. Antes de desligar ainda a ouvi gritar. Parece que a busca pelo ponto G foi bem sucedida.
Agora o mais difícil. Liguei à Charlotte e apanhei-a na igreja de Saint Patrick’s a assistir a uma missa. A Charlotte, sempre romântica, quer fisgar um Kennedy e por isso decidiu converter-se ao catolicismo. “Não foi em Portugal que Nossa Senhora apareceu a uns pastorinhos?”, perguntou ela. A cultura desta rapariga não pára de me surpreender. Se não fosse tão gira dava uma bibliotecária competente. Decidida a tornar-se numa rapariga católica sem mácula, a Charlotte alinhou. Quanto contei à Miranda que as miúdas tinham concordado em ir até Portugal-Rico ela desatou aos vivas e julgo que até beijou a Maria.
Entretanto o mr. Big tinha tomado um duche e já estava a ajeitar o nó da gravata Prada, pronto para regressar a casa. Ele e a mulher tinham bilhetes para a ópera para essa noite. Pedi-lhe boleia na limousine até à Simon & Schuster, porque não avanço para Portugal-Rico sem um bom dicionário de espanhol. À saída encontrámos o Stanford, o meu amigo “gay”. Ficou histérico. “Carrie, eu vou com vocês. Nova Iorque não tem mercado para bichas baixinhos, gordos e carecas”, disse ele. Concordei. Pode ser que o Stanford tenha mais sorte em Portugal-Rico, até porque os negros têm menos tendência para ficar carecas e talvez sejam atraídos pela mona luzidia do Stanford, que estava uma gracinha no seu fatinho púrpura do Omar Versolato. “Look out Portugal-Rico
 
  Os suspeitos puseram-se em campo e descobriram onde os políticos vão passar férias este ano. Aqui fica a reportagem, sob rigoroso pseudónimo (este texto era para ser publicado noutro lado, mas não calhou, eheheh).




Férias dos políticos marcadas pela austeridade

Em tempo de crise, o primeiro-ministro quer dar o exemplo e vai passar uma semana em Unhais da Serra, em casa da prima do seu motorista. O mote é “faça férias cá dentro”.

A austeridade vai marcar este ano as férias dos políticos portugueses. Decidido a dar o exemplo, o primeiro-ministro Durão Barroso vai passar a primeira semana de Agosto em Unhais da Serra, nos anexos da casa da Dona Maria, primeira direita do motorista da presidência do Conselho de Ministros. “Fazer férias cá dentro e evitar gastos supérfluos pode ser o esforço que falta para a viragem económica que o país tanto precisa”, disse ao PROCURADOR-GERAL fonte autorizada do Gabinete de Barroso. Na última quinzena de Agosto, Durão segue até ao Brasil em visita oficial, devendo ficar hospedado durante alguns dias na ilha privada do seu amigo Pereira Coutinho. “O senhor primeiro-ministro aceitou o convite porque precisa de sossego para preparar a ‘rentrée’”, revelou a mesma fonte. Na bagagem, Durão leva o relatório da OCDE sobre Portugal, o segundo volume da biografia política de Cavaco Silva e o último Harry Potter. Por causa dos seus problemas de fadiga crónica, Margarida Sousa Uva fica-se pelo Ancão, com Maria Elisa.
No executivo, há dois ministros que não fazem férias: Manuela Ferreira Leite e Paulo Portas. A primeira tem pela frente um Verão escaldante por causa dos protestos contra os pagamentos por conta e por isso vai ficar no Ministério. “A senhora ministra não gosta de calor nem de perder tempo com coisas menores quendo estão em causa os altos interesses do país”, garante fonte do gabinete, admitindo, no entanto, que Ferreira Leite “pode, excepcionalmente, sair para comer um gelado”. Já Paulo Portas só deixará Lisboa para uma “visita-relâmpago” de 15 dias a fábricas de armamento nos EUA, a convite de Donald Rumsfeld. Cinéfilo inveterado, leva na bagagem alguns DVD do melhor cinema francês, nomeadamente filmes com Jeanne Moreau e Catherine Deneuve, e ainda a trilogia “Rambo” para se ir “habituando ao estilo americano”, segundo um dos seus assessores.
Marques Mendes tinha casa alugada na Torreira para a quinzena de Agosto, mas decidiu mudar-se para Vilamoura, depois que foi considerado “persona non grata” em Esmoriz. Morais Sarmento escusou-se a revelar o destino das suas férias, garantindo apenas “que é um lugar modesto, bom para fazer mergulho e com RTP Internacional”. Já as férias de José Luís Arnaut estão condicionadas pelas decisões da apresentadora Sónia Brazão: se ela ficar em Portugal, Arnaut vai para o Brasil; se ela for para o Brasil ele fica em Portugal, não estando posta de parte a hipótese de se juntar a Durão Barroso em Unhais da Serra. A Dona Maria já se disponibilizou para montar um divã no corredor da cozinha. Martins da Cruz tinha planos para ir ao festival de música de Bayreuth, mas, por erro do seu gabinete, marcaram-lhe passagem de avião para o Líbano.
As coisas não estão melhores para dirigentes de outras forças políticas. O líder da oposição, Marcelo Rebelo de Sousa, vai deslocar-se à Côte de Azur, ao Mónaco, a Londres e a Angra dos Reis para conferências, mas vai manter por satélite a sua presença no Jornal de Domingo da TVI. Ferro Rodrigues vai para as termas. Mário Soares fica no Vau, como é habitual, mas este ano as férias não vão ser tão sossegadas por causa da construção de uma capela mandada erguer por Maria Barroso. Já José Lamego tem reservas para Bagdad e José Sócrates segue para Madrid, onde tenciona assistir aos treinos do Real Madrid. Carrilho e Bárbara Guimarães vão para muito longe. Francisco Assis não vai para Felgueiras.
Complicada está a vida de Carvalhas, que viu a sua reserva para Varadero anulada à última hora, em retaliação pela condenação tímida que o PCP fez dos fuzilamentos em Cuba. Provavelmente, vai passar uma semana em Lanzarote. Odete Santos vai para o Meco, Luís Fazenda para Canas de Senhorim, Francisco Louçã para um retiro em Lourdes e Miguel Portas vai para onde a mãe o levar. Manuel Monteiro não faz férias. Alberto João Jardim já está no Porto Santo, a beber ponchas e a preparar a intervenção par o Chão de Lagoa. E Jorge Sampaio vai ficar em Belém, aproveitando as férias de Verão para frequentar um seminário no Centro Cultural de Belém sobre “Como lidar com as emoções”. A estrela do seminário é a psiquiatra que trata o Tony Soprano.




 
  Caro Filipe
já suspeitava que tinhas pouco para dizer. Mas tão Pouco?! Tens um link para este blog e só sabes escrever banalidades? Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz? Onde foi parar o garboso jovem político, a jovem esperança branca que prometia uma revolução coperniciana? Serás tu, Filipe, um simples voyeur? Não tens opinião sobre nada? Nadinha mesmo? Contentas-te com as enfadonhas reuniões de Assembleia Municipal? Aí sim: Zzzzzzzzzz. Se calhar julgas que este blog é só para te entreter? Queres que eu faça uma ou duas piruetas, equilibre uma garrafa de cerveja na ponta do nariz? Grow up. E defende as tuas posições publicamente e não só dentro das quatro paredes do teu partido. Como vês, quando quero também sei ser feroz...não tenho é muito tempo....
Um abraço 
domingo, julho 06, 2003
  Nem hoje - que é suposto ser um dia de ataque de hackers - ninguém se apieda do Rui e escreve aqui? 
sábado, julho 05, 2003
  5 de Julho: Zzzzzzz Zzzzzzzz Zzzzzzzzzzzzzzzzzz :-) 
quarta-feira, julho 02, 2003
  2 de Julho, e a última mensagem aqui deixada continua a ser a minha de 30 de Junho?!... Rui, se souberes latim, saberás o que significa RIP... e presumo que passará a ser esse o futuro nome deste blog! É pena! 
Desabafos, teorias, polémicas, ciúmes...o mundo visto das Pontes. Contribuições para este blog, mantido por Rui Baptista, Hélder Castanheira, Manuel Assunção, V?tor Mangerão e companhia, podem ser enviadas para o seguinte e-mail: suspeitos@aeiou.pt

ARCHIVES
04/20/2003 - 04/27/2003 / 04/27/2003 - 05/04/2003 / 05/04/2003 - 05/11/2003 / 05/11/2003 - 05/18/2003 / 05/18/2003 - 05/25/2003 / 05/25/2003 - 06/01/2003 / 06/01/2003 - 06/08/2003 / 06/08/2003 - 06/15/2003 / 06/15/2003 - 06/22/2003 / 06/22/2003 - 06/29/2003 / 06/29/2003 - 07/06/2003 / 07/06/2003 - 07/13/2003 / 07/13/2003 - 07/20/2003 / 07/20/2003 - 07/27/2003 / 07/27/2003 - 08/03/2003 / 09/28/2003 - 10/05/2003 / 10/05/2003 - 10/12/2003 / 10/26/2003 - 11/02/2003 / 11/02/2003 - 11/09/2003 / 02/29/2004 - 03/07/2004 / 07/25/2004 - 08/01/2004 /


Powered by Blogger