quarta-feira, outubro 29, 2003

Mil Palavras


O que vale uma vaia?

Rui Baptista
(Jornalista)
rui.baptista@ip.pt
http://suspeitosdocostume.blogspot.com

O que vale uma vaia como aquela que o primeiro-ministro recebeu na inauguração do novo estádio da Luz? Tem significado político suficiente para que Durão Barroso e o PSD metam as mãos à cabeça? Merece editoriais nos jonais e um fórum na TSF?
Negar a importância da vaia é negar a realidade. Mas é preciso contextualizá-la, claro. A vaia aconteceu num clima de festa (mas, em Portugal, as “festas” e as homenagens são sempre contra alguém, como se sabe) e sucedeu a vaias ainda mais ruidosas endereçadas a Gilberto Madaíl e a Valentim Loureiro. Ou seja, a “autoridade” foi contestada, como parece ser de bom tom nos dias que vão correndo. Pedro Santana Lopes, também ele sportinguista como Durão Barroso ( e como Jorge Sampaio, o único que passou incólume no novo “inferno” da Luz) conseguiu transformar a vaia em aplausos. Durão não teve a mesma sorte (começou até por escorregar nos degraus do púlpito) mas foi despedido com mais palmas e menos assobios. Todavia, foi um bocado patético ouvir Fialho Gouveia, o “speaker” de serviço no estádio (e ao ouvi-lo recuei 20 anos no tempo) apelar à boa educação da “família benfiquista”…
Por falar em recuar no tempo… Quatro ou cinco dias antes do dia 25 de Abril de 1974, o então Presidente do Conselho, Marcello Caetano, foi entusiasticamente aplaudido de pé por uma multidão que enchia o estádio do Restelo. Passados poucos dias desta entusiática manifestação, em que muitos na altura viram um sinal de vitalidade do regime, Marcello Caetano seria obrigado a sair do Quartel do Carmo num “Chaimite”, rodeado de povo que pedia a sua cabeça. O mesmo povo que dias antes supostamente o venerava e que permitiu que ele morresse no Brasil num exílio sem glória.
A importância das vaias é relativa, como se pode ver neste episódio. Mas ignorá-las pode ser um erro muito caro eo PSD tem que ter consciência disso. Na memória de toda a gente ainda está fresca a vaia que o então primeiro-ministro António Guterres recebeu no Pavilhão Atlântico, quando teve a péssima ideia de assistir ao encerramento do Open de Portugal em ténis. Nesse caso não foi o povo quem vaiou o primeiro-ministro – foram as elites. Mas as manifestações populares de desagrado pela maneira como o país estava a ser conduzido não tardaram a aparecer e nas eleições autárquicas (sim, porque é nas eleições que se avalia o desempenho dos políticos) Guterres foi simplesmente despedido pelo povo. Muita gente acha que Guterres fez mal em ir-se embora nessa altura, muitos acusam-no de ter fugido. Eu acho que ele não tinha outra saída se quisesse manter (como mantém) algum capital político que lhe permita um “come back” em grande, provavelmente daqui a dois anos e meio, nas presidenciais.
A vaia de Guterres é comparável à de Durão? Sim e não. “Sim”, porque ambas são ruidosas manifestações de desagrado. Desagrado em relação aos políticos (“esses malandros que só querem tratar da sua vidinha”, como diz cruelmente o cidadão anónimo) e desagrado em relação às figuras concretas e ao seu modo de actuar. “Não”, porque surgiram em contextos diferentes.
Guterres foi vaiado pelas elites quando o “guterrismo” já tinha entrado no seu estertor; Durão foi vaiado pelo povo porque o país está deprimido com tantos escândalos e porque a vida não está fácil para ninguém. Saber qual é vaia mais significativa do ponto de vista político é tarefa impossível.
Tenho para mim que Durão não “pagou a fava” apenas pelo rumo do país está a tomar. Tenho para mim que o primeiro-ministro foi vaiado como foi porque o povo sente, inconscientemente se calhar, que não existe hoje em dia alternativa a Durão e ao seu Governo de coligação. E não haver uma alternativa é terrível num sistema democrático. O PS, infelizmente, está amarrado, enredado, no caso Casa Pia. O seu secretário-geral está a prazo e ninguém (nem mesmo o inefável Carrilho) quer pegar no partido. O PS não tinha sequer ninguém de primeira linha na Luz para ser vaiado. Ou para ser aplaudido. E isto é triste e preocupante.
O país ( e o país somos todos nós) precisa de alternativas. Precisa de um PS forte, que fiscalize o Governo, que faça propostas, que represente uma esperança de mudança. De um PS que não se demita das suas obrigações. Isto não é uma declaração ideológica ou partidária – é uma simples questão de bom senso. Se a situação continua com está, ainda vamos ver o PSD a fazer um Governo-sombra ao seu próprio Governo de coligação. Candidatos a primeiro-ministro-sombra no PSD é coisa que não falta. Basta olhar à volta…
Crónicas de amor e ócio

Pátria que nos pariu

Rui Baptista

1. E de repente, o país ficou cheio de especialistas. Especialistas em generalidades. Especialistas instantâneos. Ninguém está a salvo. Não vale a pena fugir. Eles estão em todo o lado, nas rádios, nas televisões, nos jornais, nos blogues, nas paragens de autocarro, nas salas de espera dos consultórios, nos bancos de jardim, nas mesas gastas de milhares de cafés e tabernas por esse país fora. Nesta coluna também, claro.
Em cada esquina um pedopsiquiatra, em cada ser vivo um perito em questões judiciais, em cada lar um professor Marcelo. “Os portugueses são incapazes de dizer ‘não sei’”, avisam os redactores da Lonely Planet no guia sobre o nosso país. Estão certos. O português médio tem opinião sobre tudo. Sobretudo, tem opinião. Lembram-se da famigerada “Lei da Rolha”? Pois finou-se. Paz à sua alma.
Vivemos num país melhor, agora que toda a gente diz o que lhe vem à cabeça? Vivemos num país mais evoluído, agora que temos gente que nos explica o mundo nas televisões? Vivemos num país mais justo, agora que peças judiciais que deviam estar em segredo de justiça aparecem nos jornais? Em que país vivemos, afinal?
Nos últimos dias tenho percebido o que é sentir saudades do futuro. Começo a entender, finalmente (mas eu sempre fui de compreensão lenta) por que razão Pessoa achava que faltava cumprir-se Portugal. Este é o país que quase chegou lá. O país do quase. “Um pouco mais de sol – eu era brasa, um pouco mais de azul – eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe de asa...Se ao menos eu permanecesse aquém...”. As palavras proféticas de Mário de Sá-Carneiro, lidas nos tempos que correm são uma lucidez feroz, amarga. No meio da confusão que por aí vai temos que nos agarrar à poesia como um náufrago a uma bóia. Pátria que nos pariu.

2. Contra a depressão, só o humor. Mesmo que involuntário. Nos moldes em que decorreu, o Dia da Defesa Nacional parece ter saído da imaginação delirante dos defuntos Monty Python. Os mancebos foram intimados a comparecer no Alfeite sob pena de pagarem uma coimazinha. As câmaras foram convidadas a assegurar transporte para a rapaziada mas baldaram-se (eu sei, esta expressão não é bonita) alegando que não dispunham de verba. No dia marcado lá apareceram uns rapazes ensonados, desconfiados, mal barbeados. A eles juntou-se, como um agente infiltrado, um dirigente da Juventude Centrista (ou das Gerações Populares, depende do “approach”), que ajudou à animação. Aos mancebos mostraram-lhe uns “gadgets”, levaram-nos nuns passeios de barco, propuseram-lhes uns exercícios mais ou menos radicais. Consta que houve até uns jogos de vídeo. “Pum, pum, estás morto, pá”! Três senhoras oficiais, cada uma representando um ramo das Forças Armadas, falaram mansamente aos rapazes sobre as virtudes de uma carreira militar. Depois foram todos para casa, com uma sandes de queijo, uma “caprisone” e o peito inchado de orgulho na Nação valente. Os que faltaram, afinal, tiveram a coimazinha perdoada. Parece que para o ano há mais. Eu, se puder, vou infiltrar-me como o militante da JC (ou das Gerações Populares, depende do “approach”). É mais barato do que passar um fim-de-semana num daqueles campos de desportos radicais. E, além disso, adoro “caprisone”. Viva a mocidade portuguesa!

3. Se eu me chamasse Ferro Rodrigues, fosse secretário-geral do PS e me estivesse “cagando para o segredo de justiça” lia com muito cuidado a carta aberta de Manuel Maria Carrilho. É que o professor não parece ter estofo físico para chegar lá (faz-lhe falta, provavelmente, passar pelo Dia da Defesa Nacional), mas é sempre o primeiro a sentir quando a presa está enfraquecida.

4. Um dia destes, a jornalista Manuela Moura Guedes arranca a cabeça do Miguel Sousa Tavares em directo na TVI. Antes que isso aconteça, talvez seja sensato arranjar alguém mais dócil para escutar os comentários do autor do excelente “Equador”. O professor Marcelo não pode continuar a beneficiar escandalosamente de
Mil palavras

O Homem quer, a obra nasce

Rui Baptista
(Jornalista)
rui.baptista@ip.pt
http://suspeitosdocostume.blogspot.com


1. Está lindo o renovado Teatro Aveirense. Três anos depois do início das obras de requalificação, a centenária sala de espectáculos vai ser devolvida aos aveirenses (e não só) já no próximo dia 23. E, a julgar pelas promessas do director artístico, João Aidos, a programação prevista para o Aveirense é de fazer nascer água na boca. “Vamos ter circo, ópera, teatro, dança contemporânea, música clássica e alguns programas específicos”, desvendou aos jornais João Aidos, quem tem o objectivo louvável de colocar o Aveirense no calendário de programação de nível nacional.
A coisa promete. Pedro Burmester e a Filarmonia das Beiras vão ser as estrelas da abertura, mas já em Novembro arranca o Ciclo de Orquestras Nacionais, com a Orquestra da Gulbenkian, e realiza-se também a segunda edição do festival “Sons em trânsito”, que vai trazer à cidade, entre outros, a bela e talentosa Susheela Raman. E para quem, como eu, viu os primeiros filmes da sua vida no Aveirense, é gratificante saber que o cinema vai regressar também à renovada sala de espectáculos. Melhor era impossível.
A reabertura do Aveirense não se esgota na festa. É um momento carregado de significado por aquilo que representa para a cidade e para a região. É a prova de que mesmo os sonhos mais improváveis podem tornar-se reais desde que haja vontade, preserverança e alguma teimosia. Faça-se justiça: o Aveirense vai reabrir porque Alberto Souto soube perceber que a boa gestão municipal também passa pela Cultura (assim mesmo, com maiúscula). E se muitas vezes o presidente da Câmara merece reparos negativos pela sua actuação, desta vez merece o aplauso rasgado de todos aqueles que amam a sua cidade (adoptiva ou não). Pode haver quem diga que o autarca não fez mais do que a sua obrigação, mas isso não deve impedir ninguém de reconhecer que está ali uma bela obra, que nos enriquece a todos.

2. Num plano mais político, refira-se que a reabertura do Aveirense é apenas um passo numa gestão que está a mudar a face da cidade. Aveiro deve muito à gestão de Girão Pereira, que lançou as linhas orientadoras do que deve ser uma cidade média como Aveiro. Para além de tratar das questões essencias (abastecimento de água, saneamento, etc.), Girão teve o mérito de conseguir manter fora do centro da cidade os tenebrosos arranha-céus que desfiguram tantas terras por esse país fora (excepção feita a esse “pudim” mandado construir pela administração central e que dá pelo nome de Centro Regional de Segurança Social). Teve ainda o mérito de conseguir quebrar a barreira física (e também psicológica) que constituía a linha ferroviária do Norte, que estava a asfixiar o crescimento da cidade, embora tenha sido decisiva, noutros tempos, para colocar Aveiro no mapa do desenvolvimento.
Em resumo, porque o espaço escasseia: Girão lançou as infrestruturas de base, deixando para o seu sucessor (e vamos considerar o consulado de Celso Santos um prolongamento natural do “gironismo”) a missão de aumentar a qualidade de vida dos cidadãos. E Souto tem estado à altura do desafio. Soube perceber a relação tremendamente afectiva que os aveirenses têem com a sua cidade, lançando meia-dúzia de projectos que vão marcar o concelho e a região por muito tempo. É verdade que nem tudo está a correr bem (asfixia financeira da autarquia, dívidas a fornecedores, etc.), mas o autarca tem obra para mostrar. E daqui até às eleições autárquicas pode dar-se ao luxo de inaugurar uma obra importante a cada par de meses.
Cada um à sua maneira, Girão Pereira e Alberto Souto foram (estão a ser) decisivos para a afirmação de Aveiro. E as paixões partidárias ou os ódios pessoais não podem escamotear esta verdade.